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Um Novo Paradigma para a formação da Identidade de Gênero

Dra.Torres, W, M.S.

 

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O que parecia óbvio se mostra muito complexo

 

Parecia na Antiguidade e na Idade Média que a identidade de gênero tinha que se formar, na Antiguidade pela ação de uma divindade fálica local, e na Idade Média pela ação da divindade Mosaica, pela determinação genital. Era simples. Quem não se adaptasse, morria. Bebês intersexuais e hermafroditas eram eliminados ao nascer. Tudo era muito simples.

 

Mais tarde, Freud baseado em suposições de Fliess ditou normas, elaborou paradigmas, estabeleceu valores como verdades. A criança seria gênero indiferenciada ao nascer, e como uma página em branco. A vida se incumbiria, ajudada por Freud, evidentemente, a estabelecer conceitos de masculinidade e feminilidade.

 

John Money aproveitou o bonde Freudiano, e ditou regras quase divinas: A criança aprenderia a ser menino ou menina como aprendia a falar. A natureza nada faria, apenas a criação e a tirania social estabeleceriam as normas.

 

Os pobres mortais acreditaram. Muitos foram torturados. Ainda mais foram excluídos, abolidos do saudável convívio social, foram trancados em guetos. Nenhuma oportunidade profissional digna, nenhum mérito intelectual poderia ser reconhecido. De assassinados subiram ao degrau de párias. Não sei o que era pior.

 

Hoje, depois da coragem de muitos pesquisadores e cientistas sérios, como Dorner em Berlin então Oriental; como Gorski, Pfaff e Imperato-McGinley nos USA; como Swaab na Holanda, entre muitos outros, a compreensão do que é e como se forma a identidade de gênero mudou, e um novo paradigma se torna essencial para nossa época.

 

Já vimos a base complexa e alguns fatos na formação da identidade de gênero, e na proposição de um novo paradigma.

 

Vamos aprofundar a questão.

 

 

A trajetória e o diagrama de fase

 

Trajetória é a série temporal determinada por algum valor. Como o movimento descrito por alguma coisa, ou a variação no tempo de alguma coisa.

O diagrama de fase é a representação dos estados da coisa em movimento, suas alterações, não diretamente em função do tempo, mas no espaço de fase, ou seja, no espaço das variações das características do movimento, eliminado o tempo como variável. Em outras palavras, após um certo tempo, a trajetória de um sistema pode convergir para um atrator (seu ponto de menor energia), que no espaço de fase será um invariante típico do sistema.

 

Ian Stewart nos dá um exemplo simples mas elucidativo de um diagrama de fase.

Imagine um pêndulo ideal e perfeito. Desses entes de razão que oscilariam eternamente, não neste universo, mas em nossa imaginação.

 

A trajetória seria o ir e vir do pêndulo numa linha que vista de frente seria um pedaço de circunferência XX’, e de cima uma linha reta XX’.

 

                      P                                    X         P’         X’

 

 

 

 


         X                P’          X’  

 

Como seria o diagrama de fase desse sistema do pêndulo?

 

A trajetória é o plotar da posição em função do tempo.

 

Teremos que plotar num eixo a posição do pêndulo e em outro o gradiente de variação da posição ou sua velocidade. Note-se que o diagrama de fase exclui o tempo como variável, ou seja, projetamos num plano todas as variáveis do sistema fora o tempo (um invariante com relação ao tempo).

 

Indo num sentido ou no outro, o pêndulo terá sempre sua velocidade máxima no ponto P’ e zero nos pontos X e X’ quando o movimento mudará de sentido.

 

 

Teremos algo assim:

                   velocidade

                                                                  P’

 

 


                         posição                   X           P            X’      

 

 


Melhores exemplos pode-se encontrar no livro de Ian Stewart (vide bibliografia).

O que é importante perceber é que no diagrama de fase, um sistema cíclico ou periódico, mostra uma figura, não necessariamente um círculo, fechado (um período).

Se um diagrama de fase mostra um ponto onde converge o sistema, qualquer que seja o ponto de partida, chamamos o sistema de um ralo, pois como um ralo numa pia, tudo o que cair dentro dela converge para o ralo (o ralo é o ponto de menor energia do sistema para onde tudo converge).

 

Se o diagrama de fase, à partir de um ponto inicial, divergir para todas as direções, esse ponto inicial é uma fonte.

 

Se o diagrama de fase se mostrar como uma sela de cavalo, onde o que está num lado da sela vai para um lado e o que estiver do outro vai para o outro, como uma sela ou um divisor de águas no diagrama de fase, chamamos o atrator de sela.

 

Poincaré verificou que a grande maioria de sistemas se comporta dessa forma, constituindo ou se compondo de formas típicas como:

 

Períodos;

Selas;

Fontes;

Ralos.

 

Essa matemática qualitativa e não quantitativa dos sistemas dinâmicos de Poincaré (conhecida como topologia), se mostra muito eficiente em casos em que as equações diferenciais seriam insolúveis ou difíceis de solucionar, principalmente quando a percepção das formas das trajetórias, dos diagramas ou de outros parâmetros se mostram insuficientes para a compreensão dos sistemas, que podem ser compreendidos pelo Espaço de Fase.

 

Nossos sistemas de diferenciação e formação da identidade de gênero certamente se adaptam perfeitamente a sistemas complexos mas que podem ser avaliados topologicamente, com base nas estruturas típicas de Poincaré.

 

A bipolaridade do gênero

 

Quase como uma unanimidade absoluta, essa bipolaridade parece certa.

 

Não é. Os casos de mosaicismos de origem cromossômica e genética; os casos de intersexo de origem genética ou endócrina e os casos de transexualismo de origem neuro-endocrino-gênica, confirmam que não é.

 

Imaginemos que entre o masculino e o feminino, como dois pólos, exista um campo onde as trajetórias possam se desenvolver. Como os limites atingidos pelo pêndulo.

 

X e X’ limitavam a possível trajetória, e assim o diagrama de fases do pendulo.

M como masculino e F como feminino imaginemos que limitem nossas possibilidades de gênero.

 

Tanto as trajetórias como os diagramas de fase do gênero se limitarão sempre a esses dois limites, o da masculinidade M e o da feminilidade F. Mas a identidade de gênero I não se limitará a esses dois possíveis atratores, podendo estabilizar num atrator entre esses limites, como um ralo (sink) ou mesmo como um período.

Nesse caso os atratores M e F são atratores para a maioria das trajetórias, mas não para todas.

Uma situação em que, à partir de uma mesma fonte, ou fonts muito próximas, o sistema pode divergir para diferentes atratores, é uma situação designada como caótica e determinística.

O gênero então, e mais precisamente a identidade de gênero (I), pode ser designada como o atrator do sistema de formação que parte de uma única fonte (aproximadamente) masculina ou feminina e pode levar a resultados imprevisíveis, independentemente das muitas variáveis que influenciem essa falta de previsibilidade intrínseca do sistema. Ou seja, em outras palavras, um início bem determinado como XY não acarreta certamente um pênis (nos casos de CAIS uma vagina) e muito menos certamente uma identidade de gênero masculina, pela inerente característica do sistema dinâmico de formação orgânica e estrutural  da identidade de gênero.

Qualquer perturbação no desenvolvimento do sistema, transformará o sink (ralo) em um período, gerando instabilidade como oscilação devido a qualquer perturbação (biológica, emocional ou do meio ambiente).

Esse período poderá ser razoavelmente estável, ou muito caótico e perturbado, ou seja o período poderá ser um atrator estável ou mesmo um atrator muito oscilante e pouco estável podendo no caso próximo à ruptura chegar a uma situação caótica e imprevisível conhecida como atrator estranho. Ultrapassado o limite, se o ponto de mínima energia do sistema estiver ainda assim com muita energia acumulada (estruturalmente por discordâncias biológicas estruturais internas ou por fatores exógenos derivados do ambiente), poderá haver a ruptura estocástica, ou seja, a destruição do atrator (psiquicamente o auto-extermínio, o surto, a psicose).

 

As etapas Biológicas de diferenciação de gênero

 

Temos que considerar pelo menos, em nossas trajetórias e diagramas de fase, as seguintes etapas biológicas:

 

1. Etapa --- cromossomos;

2. Etapa --- gônadas;

3. Etapa --- genitais;

4. Etapa --- SBN – social behavior network do cérebro basal;

5. Etapa --- CC- cerebral cortex do cérebro cortical;

Onde

M --- Fonte (source) e/ou Ralo (sink) como atrator da masculinidade;

F --- Fonte (source) e/ou Ralo (sink) como atrator da feminilidade;

I --- Ralo (sink) ou período como atrator da identidade (sink quando bem estável e nada oscilante, e período mais ou menos oscilante e não completamente estável, quando mais complexo- quando muito complexo pode-se tornar aleatório, imprevisível e “estranho”).

 

 

Exemplos de trajetórias e diagramas de fase

 

Vejamos os exemplos simples e fundamentais a seguir:

 

 

 

Do gráfico vemos que para um homem normal (na realidade “ideal”), a trajetória da formação da identidade de gênero leva à convergência para o ponto M, ou seja, da masculinidade plena (vice versa para a mulher normal e feminilidade plena).

 

Assim, para essa trajetória podemos representar o diagrama de fases como um ponto:

.M

Esse ponto azul corresponde ao ponto M, o atrator de I para um homem normal (um ralo perfeito, para onde todo o sistema converge de forma absolutamente estável).

Vice versa para o ponto F para a mulher normal.

 

Em ambos os casos, durante e após a formação da etapa 5, todos os reforços sociais e ambientais se darão no sentido de afirmar o atrator M (ou F).

Por outro lado, homem (ou mulher) ideal não existe, fora de nossa imaginação. Então nos sistemas reais, nas pessoas reais, a fonte masculina tende a levar a um ralo masculino, mas como num vortex, com um pequeno movimento mas não idealmente retilíneo.

 

Um exemplo biológico mais estranho

 

Vamos admitir agora uma trajetória mais estranha, um caso de intersexo conhecido como hipospádia. Neste caso muito real, a identidade I se aproximará muito de M, mas não como um ralo perfeito e centrado em M necessariamente, mas como um ralo quase período, que pode ou não se centrar em M.

 

 

Nesse caso o diagrama de fases pode ser representado como segue:

 

 


 

 M      I                   F

Vemos pelo diagrama de fase que a masculinidade funciona como fonte (source). Ocorre uma variação devido à hipospádia, que afeta o SBN e o CC, mas a masculinidade prevalece na formação da identidade de gênero I, que se forma como um período que quase se identifica com um ralo (sink) como atrator masculino. O incentivo social e cultural à masculinidade ajudará a consolidar esse atrator.

 

As 5 etapas biológicas não são suficientes

 

Que existem as 5 etapas biológicas que já mencionamos não há dúvida, na formação da identidade de gênero. Não somos páginas em branco como imaginaram Fliess, Freud, Money. Temos bilhões de anos de história em nós, desde a origem da vida. Alguns milhões como primatas humanos, algumas centenas de milhares como Homo sapiens sapiens e pelo menos 6 a 7 mil anos de civilização desde o início desta no interior da África, mãe de todos nós.

 

Essa história biológica determina em nós 5 etapas biológicas de diferenciação sexual, como em todos os primatas:

 

  1. Dos cromossomos;
  2. Das gônadas;
  3. Dos genitais externos;
  4. Do cérebro basal (SBN);
  5. Do cérebro cortical (cérebro cognitivo)

 

Nos primatas não humanos, essas diferenciações DETERMINAM a identidade de gênero, de forma inequívoca.

 

4 dessas etapas, em primatas ocorrem durante a gestação  e apenas a última é pós-natal.

 

Outras espécies de mamíferos carecem da etapa 5, praticamente.

 

Ficam apenas nas 4 primeiras etapas que para eles são necessárias e suficientes para determinar a identidade de gênero.

Para essas espécies, a quarta etapa se torna, pelo menos em parte, pós-natal.

 

Mas o primata humano é mais complexo que isso.

 

Mesmo depois das 5 etapas, MESMO QUANDO EXISTE A HARMONIA E CONCORDÂNCIA NAS 5 ETAPAS  o sistema pode ser perturbado por fatores existenciais posteriores.

 

Nesses casos, essas perturbações não serão propriamente na identidade de gênero propriamente dita, mas numa estrutura que podemos chamar de papéis de gênero, que muitas vezes nessas condições podem parecer se confundir.

 

O equívoco da generalização de Money

 

Money baseou seus estudos em Fliess e Freud, e em casos de hermafroditismo (mosaicismos).

 

Suas idéias pareciam funcionar.

 

Ele imaginou que, se funcionavam numa situação tão radical, seria uma condição geral. Aí ele se equivocou, como outros já haviam se equivocado. A nosso ver o grande erro de Money foi generalizar o que não poderia ser generalizado.

Evidentemente, na época de suas generalizações ninguém pensava em dinâmica de formação da identidade de gênero, e imaginava-se que o que funcionasse num mosaicismo, um caso estranho e radical, funcionaria para os outros casos.

 

Vejamos o caso do mosaicismo e sua trajetória.

Vejamos casos em que os cromossomos e os genitais ficassem quase que 50% masculinos e 50% femininos:

 

 

 

 

É importante analisar detalhadamente esta questão e este diagrama de trajetórias possíveis (potenciais) de formação da identidade de gênero de um hermafrodita típico.

 

Todas as etapas biológicas, de 1 a 5 se mostram muito incertas, potencialmente instáveis. Veja que partimos de uma situação de dualidade, de 50% de masculinidade cromossômica (já muito instável – mas de um ovo humano, portanto de uma origem humana comum aos humanos), que pode gerar uma gama de valores nas gônadas, ainda mais incerta. Para simplificar, admitimos os mesmos 50% genitais  mas seremos obrigados a admitir uma incerteza  total na etapa 4. A etapa 5 voltamos a admitir uma analogia com os genitais, aproximada pelo menos, mas depois.... a incerteza é quase absoluta, e a periodicidade certa e provavelmente de amplo espectro de oscilação possível, ou seja, um sistema muito instável.... que aos olhos de Money pareceu.....moldável.... sugestionável....

 

A instabilidade dinâmica no atrator da identidade de gênero em casos de mosaicismos, Money interpretou (como imaginavam Freud e Fliess para todo ser humano), natural maleabilidade, natural adaptabilidade tardia.

 

Essa interpretação foi o seu equívoco, que gerou seus equívocos posteriores.

 

Quais as conclusões de Money?

 

Pessoas hermafroditas, com genitais indiferenciados e com tecidos dos dois gêneros (mosaicismos), têm sua identidade de gênero instável, maleável, moldável!

 

Se manipularmos convenientemente as crianças, elas se adaptarão facilmente à situação que determinarmos, tal sua instabilidade após essas 5 etapas biológicas (ele imaginava 3 etapas biológicas, as 3 primeiras apenas, e ignorava as outras duas) de diferenciação!

Essa fácil manipulação através da “criação” as ensinará a serem como for mais conveniente para nós, adultos, quem elas sejam, e assim o problema estará resolvido!

 

Como vemos o raciocínio de Money para os casos de mosaicismos não estava equivocado, mesmo que OS MÉTODOS por ele propostos fossem sempre desumanos e NADA ÉTICOS (a meu ver, uns 50 anos depois).

 

Mas o pior de tudo foi o fato dele haver generalizado essa idéia, imaginando que todos: pessoas normais, hermafroditas, transexuais, crossdressers, intersexuais tivessem uma identidade maleável, como imaginou Fliess e admitiu Freud.

 

A idéia da maleabilidade generalizada da identidade de gênero, determinada por Freud (então reverenciado como pessoa inquestionável), reforçada essa posição pela sócio-psicologia dominante, pela sociologia, pela antropologia e pelo humanismo reducionista vigentes, se consolidou desde então como verdade científica, ensinada e propagada pela academia, nas faculdades de medicina e nas universidades e faculdades de psicologia. A academia se deixou contaminar pela generalização inapropriada (não foi a primeira vez, diga-se de passagem), e quaisquer manifestações dos pacientes à partir de então contra a “verdade científica” seria apenas mais um sinal de seus transtornos e de seu desequilíbrio.

 

Evidentemente pode-se induzir e coagir uma criança, que tenha uma trajetória de formação da identidade de gênero muito conturbada biologicamente, e que termina por se tornar oscilante com um atrator deformado e periódico, a se sentir mais ou menos como gostaríamos que ela se sentisse.

Todo torturador sempre foi um especialista nisso, desde o início de nossa civilização.

Mas nem todos foram considerados “deuses” ou professores eméritos, nem tiveram tantas verbas federais para suas pesquisas e sua divulgação.

 

A generalização de Money foi catastrófica, pois gerou a necessidade de ser comprovada publicamente. Essa necessidade certamente geraria pelo menos uma vítima (mas provavelmente muitas vítimas) e essa vítima foi John/Joan, ou melhor, David Reimer.

 

David Reimer não era nem hermafrodita nem intersexual. Ele foi vítima de uma imperícia médica, quando seu pênis aos 8 meses de idade foi cauterizado.

 

Depois John Money sugeriu e autorizou sua castração ainda bebê e depois sua transgenitalização, para o feminino. Criado como menina deveria se adaptar, se a identidade de gênero fosse como em hermafroditas, tão instável (ou tão indeterminada e maleável, como Money/Freud imaginavam).

 

Vejamos a trajetória de formação da identidade de gênero de David Reimer:

 

 

 

 

No caso de David Reimer a situação é totalmente diferente.

As 5 fases biológicas eram absolutamente estáveis, convergentes, convergindo para um atrator masculino como um ralo, como todos os homens normais.

 

Money atuar sobre uma identidade oscilante e instável como de um hermafrodita era uma coisa, agora agredir uma identidade estável era outra totalmente distinta em sua base!

 

Vemos que a coação sob tortura pode desestabilizar o que era estável. Pode desestabilizar levando à psicose, certamente à depressão e neurose, ao desejo de auto-mutilação e auto-extermínio.

 

Pela reação posterior de David Reimer, vê-se que a tortura da criação opressiva e imposta não é adequada e muito menos eticamente aceitável, e é ineficiente para provocar a estabilidade em outro atrator, MAS PODE SER EFICIENTE PARA LEVAR À RUPTURA o atrator natural, o que significa o desepero, O AUTO-EXTERMÍNIO, O SUICÍDIO.

 

Um dia, DAVID SE SUICIDOU.

David era um menino normal, com formação normal e harmônica da identidade, que naturalmente convirgiria para o masculino como menino, num atrator simples ou sink (ralo).

 

A incompetência de um médico o fez como se fosse uma criança intersexual, o que não era.

Tratado como se fosse intersexual, foi torturado e coagido a se transformar em quem não era. Procurou-se destruir sua identidade de gênero, e se conseguiu até certo ponto, sob tortura.

 

Depois, se sentiu como um transexual FtM e procurou ajuda, procurou a redesignação sexual.

Mas haviam-lhe retirado o que ainda teria, havia sido castrado, retiraram-lhe os testículos, ainda bebê, quando não podia gritar: NÃO!!!!! Não me mutilem!

Sofreu como transexual FtM.

 

Muito pressionado, em certo momento se suicidou.

 

Ainda hoje muitos defendem as idéias de Money...

 

 

Os casos PAIS e sua vulnerabilidade às manipulações da “terapia do sexo de criação”, assim como outros casos de intersexo.

 

Já vimos que os casos PAIS- partial androgen insensitivity syndromes levam a formações muito complexas da identidade de gênero, e mesmo biologicamente estas complexidades levam a oscilações e indeterminações potenciais e derivadas da própria biologia nas 5 etapas de diferenciação biológica.

 

As trajetórias podem ser muito variáveis e complexas:

 

 

 

 

 

 

Mesmo partindo de uma fonte puramente masculina, e de gônadas masculinas, os genitais podem ser parcialmente masculinizados num caso PAIS.

 

O SBN pode ser diferentemente masculinizado, pois o processo de masculinização é diverso, os controles são mais complexos (o SBN do cérebro basal é organizado por T-testosterona e os genitais por DHT-dihidrotestosterona).

 

O CC-cortex cerebral tende a ser mais concordante com os genitais, pois os processos, mesmo não idênticos, são mais parecidos (ambos baseados na ação de DHT).

A identidade, meramente por fatores biológicos, pode ser instável, com um atrator em período, ou seja, numa trajetória existencial oscilante, independentemente do meio cultural e social.

Só por fatores biológicos nas 5 etapas fundamentais a instabilidade estrutural existe nos casos PAIS, o que faz com que essas pessoas se tornem mais vulneráveis a variações na identidade de gênero, e assim mais vulneráveis a pressões, torturas e coações externas,  como as propostas pela terapia do “sexo de criação” proposta por John Money.

 

Pelos mesmos motivos a maioria dos casos intersexo se tornam vulneráveis, não só os derivados de PAIS, a interferências externas. Nem só derivados de uma fonte masculina. Fontes femininas também dão origem as casos de intersexo, com as mesmas periodicidades e vulnerabilidades biológicas e estruturais  decorrentes.

 

Para esses casos, novamente a “terapia” do sexo de criação, DESDE QUE NÃO HAJAM COAÇÕES, pode ser adequada, já que o paciente pode precisar de ajuda para encontrar a melhor solução genital e de gênero, para si. Desde que CENTRADA NA HARMONIA DO PACIENTE, essa terapia pode vir a se tornar uma enorme ajuda de enorme valia.

 

Os transtornos de identidade de gênero

 

Existem situações típicas reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde, consubstanciadas em normas psiquiátricas como a DSM-4 da APA-American Psychiatric Association e nas SOC-6 da Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association-HBIHDA, que estão classificadas no CID-10 (décima versão do Código Internacional de Doenças) sob a rubrica F.64.

 

Distinguem-se entre esses transtornos (preferimos considerar DISCORDÂNCIAS DE GÊNERO, já que nem sempre derivam de verdadeiros casos psiquiátricos) algumas situações típicas:

 

Transexualismo (F.64.0; F.64.2);

Crossdressing (CD) ou transformismo (F.64.1);

Situações não bem especificadas, entre as quais o Travestismo ou Transgenderismo (TG) classificados como F.64.8.

 

 

 

Transexualismo

 

Vamos estudar as possíveis trajetórias do transexualismo, na formação da identidade de gênero:

 

 

 

Biologicamente essas pessoas apresentam alguma fragilidade e instabilidade na formação da identidade de gênero, mas essa instabilidade é menor que no caso do intersexo ou mosaicismo.

 

Mesmo assim, a vulnerabilidade a pressões, coações e torturas ainda é maior que o normal, principalmente pela provável bipolaridade de gênero interna no cérebro, a parte basal tendendo para um gênero e a cortical para outro. Essas discordâncias bastante radicais geram certamente oscilações de origem biológica posteriores na formação da identidade de gênero. Quando as interferências externas, da família, da cultura e do meio não são opressoras, mas concorrem para a harmonia do paciente, essa instabilidade natural tende a regredir ou ser minimizada a valores saudáveis. Quando o meio perturba, aumentando a instabilidade, com agressões e repressões, forçando um inadequado “sex of rearing por exemplo, ou excluindo socialmente o paciente (ridicularizando, limitando possibilidades profissionais e acadêmicas, restringindo a guetos como parias), a instabilidade pode chegar a níveis próximos à ruptura.

 

A maioria dos casos de mosaicismos e de intersexo, convenientemente estimulada pode se adaptar e procurar estabilizar, com base numa “sugestão” externa. A pessoa transexual dificilmente aceita ou se amolda a “sugestões” externas.

 

A ruptura, com auto-extermínio ou mutilações genitais é freqüente.

 

A exclusão de oportunidades profissionais e sociais, pode levar à ruptura.

 

A ignorância de terapias mal elaboradas pode levar à ruptura, assim como diagnósticos inadequados e tratamentos mal elaborados.

Cirurgias de redesignação genital mal elaboradas e irresponsáveis podem levar à ruptura e auto-extermínio.

 

Por isso a preparação e capacitação de profissionais de saúde para avaliação desses casos é essencial e fundamental.

 

 

Travestismo (transgenderismo-TG) e Crossdressing-CD

 

Esses casos, mesmo parecendo ser congêneres do transexualismo, na dinâmica da formação biológica da identidade de gênero são fundamentalmente diferentes.

 

Na formação biológica da identidade de gênero, as pessoas transexuais sofrem de uma discordância interna de gênero entre os tecidos do SBN e tecidos do CC e dos genitais e outras etapas anteriores, o que leva a uma natural vulnerabilidade e a oscilações e periodicidades em sua trajetória na parte final.

 

Essas vulnerabilidades biológicas derivadas de discordâncias na biologia interna não existem necessariamente nos casos de TG e CD.

 

Vide a trajetória nesses casos típicos:

 

 

 

 

 

 

Normalmente, a biologia não mostra sinais de discordâncias internas, nem no SBN nem no CC, muito menos nos genitais.

 

Mas, devido a fortes experiências traumáticas precoces,  (ou a outros fatores possíveis, como fatores românticos por exemplo) surgem casos CD e TG.

 

Não queremos dizer que todos os casos CD e TG têm origem traumática, mas afirmamos que em sua maioria, quando se pesquisa, se encontra etiologias em traumas oriundos da infância nos casos TG e na infância ou adolescência nos casos CD.

 

Um exemplo interessante surgiu num curta metragem, desenvolvido pelo Departamento de Cinema na Universidade Estácio de Sá no Rio de Janeiro.

Foram produzidos por essa universidade, dois filmes em curta metragem, um deles “Candidato Camaleão” do qual a Dra.Torres participou, sendo entrevistada. Ela falou superficialmente destes assuntos e o filme ficou muito bonito. Foi apresentado no cinema da Estácio de Sá, e Dra.Torres participou de uma mesa sobre o assunto e o filme. Isso tudo no dia 25 de Novembro de 2005.

 

Nessa ocasião um outro filme foi apresentado, “Lady Christiny” sobre uma transgênero.

Essa transgênero (TG) evidenc iou por sua história, que sua disforia de gênero não teve origem em trauma  mas como conseqüência de um impulso tardio de direção homossexual, por uma pessoa específica (um estímulo romântico)

Sem essa pessoa o impulso regredia, e a vontade de regredir de sua situação de transformação TG aparecia.

Fatos da vida, mesmo tardios, instabilizaram um pouco seu sistema de auto percepção, com motivação muito específica.

 

Como vemos, nem todo caso TG é uma conseqüência de trauma precoce,  mas esse fato não elimina a probabilidade dessa associação NA GRANDE MAIORIA DOS CASOS TÍPICOS TG.

 

Os traumas nos casos TG geralmente são mais basais, na primeira infância, principalmente derivados de REJEIÇÃO MATERNA (e a criança, quando originalmente masculina,  tende mesmo a identificar-se com a mãe (de forma MtF), por introjeção de culpa... numa situação bem Freudiana... – e a criança originalmente feminina, quando rejeitada, tende a odiar a mãe, numa reação FtM). Mas estes casos estão bem classificados como GIDNOS, pois essas reações radicais de identificação são geradas por um estresse pós traumático (PTSD - post traumatic stress disorder).

 

Os traumas em casos CD derivam geralmente de situações de vida que levaram a muito baixa auto-estima, derivando de abuso sexual ou familiar, violência doméstica ou causas similares, e algumas vezes de impulsos sexuais e possivelmente românticos e idealizados, de fundo bi ou homossexual.

 

Essas regras são práticas e derivam da experiência terapêutica, sem base teórica mais profunda, mas certamente são reais e importantes.

 

A orientação sexual de travestis (TG’s) é muito variável, sendo comum o desejo bissexual, mas também, homo ou heterossexual. CD’s na maioria são bissexuais ou heterossexuais... uma minoria tem preferência estritamente homossexual.

 

 

Vítimas da desestabilização de seu sistema

 

Tanto travestis (TG) como transformistas (CD) são vítimas da desestabilização de sistemas anteriormente estáveis.

 

Já sabemos que a tortura, a pressão e a coação (derivadas do exterior e de traumas e de estresse pós traumático) podem desestabilizar um sistema estável, dependendo da energia que se fornece ao sistema para perturbá-lo e desestabilizá-lo.

 

Voltemos ao pêndulo. A trajetória do pêndulo é um vai e vem.

Fornecendo mais energia ao movimento, o pêndulo pode se tornar um movimento rotatório em torno de um eixo.

Fornecendo mais energia, a corda do pêndulo pode romper, e o movimento será absolutamente aleatório.

 

Tudo depende da energia com que se perturba um sistema.

 

Sistemas instáveis como a identidade de gênero (determinada biologicamente) em hermafroditas e intersexuais, são facilmente desestabilizados por torturas, coações e pressões e por aconselhamento e boas terapias.  Parecem moldáveis, devido a sua intrínseca instabilidade estrutural biológica.

 

Sistemas medianamente estáveis como de transexuais, são desestabilizados com maior dificuldade, mas com mais energia também são desestabilizados (e por resistirem mais estoicamente, agredidos com violência podem ser destruídos).

 

Sistemas estáveis, como o de David Reimer (homem polarizado, “normal”), de travestis (TG) e CD`s podem ser desestabilizados por muita energia ( trauma na primeira infância, rejeição materna, abuso sexual, abuso e violência) ou por “terapias autoritárias”  como a do sexo de criação de John Money.... ou por motivos românticos, que podem desestabilizar qualquer um.

 

A realidade clama por um Novo Paradigma

 

A simples genitalidade, a realidade mostra, não basta.

 

A coação e tortura sistemática de crianças “como terapia” não resolve. A cirurgia autoritária em bebês intersexuais podem gerar enormes dramas.

 

O conhecimento liberta.

 

O conhecimento da complexidade do processo biológico de formação da identidade de gênero;

O conhecimento da possibilidade de desestabilização dos sistemas formados biologicamente;

A vulnerabilidade de sistemas mais instáveis;

 

O respeito, edifica, restaura, harmoniza, regenera.

Todo tratamento de gênero, qualquer que seja, deve estar sempre centrado na harmonia do paciente, e não nas idéias e nas teorias do terapeuta.

 

Tudo isso leva a um novo paradigma.

 

Porque não propor um novo paradigma, para a classificação das pessoas como homens, mulheres.... ?????

 

Bibliografia

 

Stewart, I – Does God Play Dice? The New Mathematics of Chaos (1989) – Penguin Books, 1990;

 

Torres,WF & Jurberg,P – Ser homem ou ser mulher:a identidade neuro-psíquica de gênero como fator determinante --- Scientia Sexualis, 6(3), 2000;

 

Torres,WF & Jurberg,P – A gender neural basal network and the dynamics for gender identity formation – Presented at the XVth World Congress of Sexology, Paris, 2001 – later published at GID Journal 1(1),2003, with the title: Gender Identity: a dynamical neuro-psychical process ;

 

Torres, WF – Gênero: do Mito à Realidade – Dissertação de Mestrado em Sexologia, UGF, 2002;  

 

Torres,WF – Gender Identity formation thermodynamics – GID Journal 2(1),2004;

 

Torres,WF – Gender Identity formation dynamics I –GID Journal 2(2),2004;

 

 

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