Um Novo Paradigma para a
formação da Identidade de Gênero
Dra.Torres, W, M.S.
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Parecia na Antiguidade e na Idade Média que a
identidade de gênero tinha que se formar, na Antiguidade pela ação de uma
divindade fálica local, e na Idade Média pela ação da divindade Mosaica, pela
determinação genital. Era simples. Quem não se adaptasse, morria. Bebês
intersexuais e hermafroditas eram eliminados ao nascer. Tudo era muito simples.
Mais tarde, Freud baseado em
suposições de Fliess ditou normas, elaborou
paradigmas, estabeleceu valores como verdades. A
criança seria gênero indiferenciada ao nascer, e como
uma página
John Money aproveitou o bonde Freudiano, e ditou regras quase divinas: A criança aprenderia a ser menino ou menina como aprendia a falar. A natureza nada faria, apenas a criação e a tirania social estabeleceriam as normas.
Os pobres mortais acreditaram.
Muitos foram torturados. Ainda mais foram excluídos, abolidos do saudável
convívio social, foram trancados
Hoje, depois da coragem de muitos pesquisadores e cientistas sérios, como Dorner em Berlin então Oriental; como Gorski, Pfaff e Imperato-McGinley nos USA; como Swaab na Holanda, entre muitos outros, a compreensão do que é e como se forma a identidade de gênero mudou, e um novo paradigma se torna essencial para nossa época.
Já vimos a base complexa e alguns fatos na formação da identidade de gênero, e na proposição de um novo paradigma.
Vamos aprofundar a questão.
A trajetória e o diagrama de fase
Trajetória é a série temporal determinada por algum valor. Como o movimento
descrito por alguma coisa, ou a variação no tempo de alguma coisa.
O diagrama de fase é a representação dos estados da coisa em movimento,
suas alterações, não diretamente em função do tempo, mas no espaço de fase, ou
seja, no espaço das variações das características do movimento, eliminado o
tempo como variável. Em outras palavras, após um certo
tempo, a trajetória de um sistema pode convergir para um atrator
(seu ponto de menor energia), que no espaço de fase será um invariante
típico do sistema.
Ian Stewart nos dá um exemplo simples mas elucidativo de um diagrama de fase.
Imagine um pêndulo ideal e perfeito. Desses entes de razão que
oscilariam eternamente, não neste universo, mas em nossa imaginação.
A trajetória seria o ir e vir do pêndulo numa linha que vista de
frente seria um pedaço de circunferência XX’, e de cima uma linha reta XX’.
P X P’ X’

![]()
X P’ X’
Como seria o diagrama de fase desse sistema
do pêndulo?
A trajetória é o plotar da
posição em função do tempo.
Teremos que plotar num
eixo a posição do pêndulo e em outro o gradiente de variação da posição ou sua
velocidade. Note-se que o diagrama de fase exclui o tempo como variável, ou
seja, projetamos num plano todas as variáveis do sistema fora o tempo (um invariante com relação ao tempo).
Indo num sentido ou no outro, o pêndulo terá sempre sua
velocidade máxima no ponto P’ e zero nos pontos X e X’ quando o movimento
mudará de sentido.
Teremos algo assim:
velocidade
P’

![]()
posição X P X’
![]()
Melhores exemplos pode-se
encontrar no livro de Ian Stewart (vide bibliografia).
O que é importante perceber é que no diagrama de
fase, um sistema cíclico ou periódico, mostra uma figura, não necessariamente
um círculo, fechado (um período).
Se um diagrama de fase mostra um ponto onde converge
o sistema, qualquer que seja o ponto de partida, chamamos o sistema de um ralo,
pois como um ralo numa pia, tudo o que cair dentro dela converge para o ralo (o
ralo é o ponto de menor energia do sistema para onde tudo converge).
Se o diagrama de fase, à
partir de um ponto inicial, divergir para todas as direções, esse ponto inicial
é uma fonte.
Se o diagrama de fase se mostrar como uma sela de
cavalo, onde o que está num lado da sela vai para um lado e o que estiver do
outro vai para o outro, como uma sela ou um divisor de águas no diagrama de
fase, chamamos o atrator de sela.
Poincaré verificou que a grande maioria de sistemas se
comporta dessa forma, constituindo ou se compondo de formas típicas
como:
Períodos;
Selas;
Fontes;
Ralos.
Essa matemática qualitativa e não quantitativa dos
sistemas dinâmicos de Poincaré (conhecida como
topologia), se mostra muito eficiente em casos em que as equações diferenciais
seriam insolúveis ou difíceis de solucionar, principalmente quando a percepção das formas das trajetórias, dos diagramas ou de outros
parâmetros se mostram insuficientes para a compreensão dos sistemas, que
podem ser compreendidos pelo Espaço de Fase.
Nossos sistemas de diferenciação e formação da
identidade de gênero certamente se adaptam perfeitamente a sistemas complexos mas que podem ser avaliados topologicamente, com base nas
estruturas típicas de Poincaré.
Quase
como uma unanimidade absoluta, essa bipolaridade parece certa.
Não é. Os casos
de mosaicismos de origem cromossômica e genética; os
casos de intersexo de origem genética ou endócrina e
os casos de transexualismo de origem neuro-endocrino-gênica, confirmam que não é.
Imaginemos que entre o masculino e o feminino, como dois pólos, exista um campo onde as trajetórias possam se desenvolver. Como os limites atingidos pelo pêndulo.
X e X’ limitavam a possível trajetória, e assim o diagrama de fases do pendulo.
M como masculino e F como feminino imaginemos que limitem nossas possibilidades de gênero.
Tanto as
trajetórias como os diagramas de fase do gênero se limitarão sempre a esses
dois limites, o da masculinidade M e o da feminilidade F. Mas a identidade de
gênero I não se limitará a esses dois possíveis atratores,
podendo estabilizar num atrator entre esses limites,
como um ralo (sink) ou mesmo como um período.
Nesse caso os
atratores M e F são atratores
para a maioria das trajetórias, mas não para todas.
Uma situação em que, à
partir de uma mesma fonte, ou fonts muito próximas, o
sistema pode divergir para diferentes atratores, é
uma situação designada como caótica e determinística.
O gênero então, e mais precisamente a
identidade de gênero (I), pode ser designada como o atrator
do sistema de formação que parte de uma única fonte (aproximadamente) masculina
ou feminina e pode levar a resultados imprevisíveis,
independentemente das muitas variáveis que influenciem essa falta de
previsibilidade intrínseca do sistema. Ou seja, em outras palavras, um início
bem determinado como XY não acarreta certamente um pênis (nos casos de CAIS uma
vagina) e muito menos certamente uma identidade de gênero masculina, pela
inerente característica do sistema dinâmico de formação orgânica e estrutural da identidade de gênero.
Qualquer perturbação no desenvolvimento do
sistema, transformará o sink
(ralo) em um período, gerando instabilidade como oscilação devido a
qualquer perturbação (biológica, emocional ou do meio ambiente).
Esse período poderá
ser razoavelmente estável, ou muito caótico e perturbado, ou
seja o período poderá ser um atrator
estável ou mesmo um atrator muito
oscilante e pouco estável podendo no caso próximo à ruptura chegar a uma
situação caótica e imprevisível conhecida como atrator
estranho. Ultrapassado o limite, se
o ponto de mínima energia do sistema estiver ainda assim com muita energia
acumulada (estruturalmente por discordâncias biológicas estruturais internas ou
por fatores exógenos derivados do ambiente), poderá haver a ruptura
estocástica, ou seja, a destruição do atrator
(psiquicamente o auto-extermínio, o surto, a psicose).
Temos
que considerar pelo menos, em nossas trajetórias e diagramas de fase, as
seguintes etapas biológicas:
1. Etapa ---
cromossomos;
2. Etapa ---
gônadas;
3. Etapa --- genitais;
4. Etapa ---
SBN – social behavior network
do cérebro basal;
5. Etapa --- CC- cerebral cortex do cérebro cortical;
Onde
M --- Fonte (source) e/ou Ralo (sink) como atrator da masculinidade;
F --- Fonte (source) e/ou Ralo (sink) como atrator da feminilidade;
I --- Ralo (sink) ou período como atrator da
identidade (sink quando bem estável e nada oscilante,
e período mais ou menos oscilante e não completamente estável, quando mais complexo- quando muito complexo pode-se tornar aleatório,
imprevisível e “estranho”).
Vejamos
os exemplos simples e fundamentais a seguir:

Do gráfico vemos que para um homem normal (na
realidade “ideal”), a trajetória da formação da identidade de gênero leva à
convergência para o ponto M, ou seja, da masculinidade plena (vice versa para a
mulher normal e feminilidade plena).
Assim, para essa trajetória podemos representar o diagrama de fases como um ponto:
.M
Esse ponto azul corresponde ao ponto M, o atrator de I
para um homem normal (um ralo perfeito, para onde todo o sistema converge de
forma absolutamente estável).
Vice versa para o ponto F para a mulher normal.
Em ambos os casos, durante e após a formação da etapa 5, todos os reforços sociais e ambientais se darão no sentido de afirmar o atrator M (ou F).
Por outro lado, homem (ou mulher) ideal não existe, fora de nossa imaginação. Então nos sistemas reais, nas pessoas reais, a fonte masculina tende a levar a um ralo masculino, mas como num vortex, com um pequeno movimento mas não idealmente retilíneo.
Vamos admitir agora uma trajetória mais estranha, um
caso de intersexo conhecido como hipospádia. Neste caso muito real, a
identidade I se aproximará muito de M, mas não como um ralo perfeito e centrado
em M necessariamente, mas como um ralo quase período, que pode ou não se
centrar em M.

Nesse
caso o diagrama de fases pode ser representado como segue:
![]()
M I F
Vemos pelo diagrama de fase que a masculinidade funciona como fonte (source). Ocorre uma variação devido à hipospádia, que afeta o SBN e o CC, mas a masculinidade prevalece na formação da identidade de gênero I, que se forma como um período que quase se identifica com um ralo (sink) como atrator masculino. O incentivo social e cultural à masculinidade ajudará a consolidar esse atrator.
Que existem as 5 etapas
biológicas que já mencionamos não há dúvida, na formação da identidade de
gênero. Não somos páginas em branco como imaginaram Fliess,
Freud, Money. Temos bilhões de anos de história em nós, desde a origem da vida.
Alguns milhões como primatas humanos, algumas centenas de milhares como Homo
sapiens sapiens e pelo menos
Essa história biológica determina em nós 5 etapas biológicas de diferenciação sexual, como em todos os primatas:
Nos primatas não humanos, essas diferenciações DETERMINAM a identidade de gênero, de forma inequívoca.
4 dessas etapas, em primatas ocorrem durante a gestação e apenas a última é pós-natal.
Outras espécies de mamíferos carecem da etapa 5, praticamente.
Ficam apenas nas 4 primeiras etapas que para eles são necessárias e suficientes para determinar a identidade de gênero.
Para essas espécies, a quarta etapa se torna, pelo menos em parte, pós-natal.
Mas o primata humano é mais complexo que isso.
Mesmo depois das 5 etapas, MESMO
QUANDO EXISTE A HARMONIA E CONCORDÂNCIA NAS 5 ETAPAS o
sistema pode ser perturbado por fatores existenciais posteriores.
Nesses casos, essas perturbações não serão propriamente na identidade de
gênero propriamente dita, mas numa estrutura que podemos chamar de papéis de
gênero, que muitas vezes nessas condições podem parecer se confundir.
Money baseou seus estudos em Fliess e Freud, e em
casos de hermafroditismo (mosaicismos).
Suas idéias pareciam funcionar.
Ele imaginou que, se funcionavam numa situação tão radical, seria uma condição geral. Aí ele se equivocou, como outros já haviam se equivocado. A nosso ver o grande erro de Money foi generalizar o que não poderia ser generalizado.
Evidentemente, na época de suas generalizações ninguém pensava em dinâmica de formação da identidade de gênero, e imaginava-se que o que funcionasse num mosaicismo, um caso estranho e radical, funcionaria para os outros casos.
Vejamos o caso do mosaicismo e sua trajetória.
Vejamos casos em que os cromossomos e os genitais ficassem quase que 50% masculinos e 50% femininos:

É importante analisar detalhadamente esta questão e
este diagrama de trajetórias possíveis (potenciais) de formação da
identidade de gênero de um hermafrodita típico.
Todas as etapas biológicas, de
A
instabilidade dinâmica no atrator da identidade de
gênero em casos de mosaicismos, Money interpretou
(como imaginavam Freud e Fliess para todo ser
humano), natural maleabilidade, natural adaptabilidade tardia.
Essa
interpretação foi o seu equívoco, que gerou seus equívocos posteriores.
Quais as conclusões de Money?
Pessoas hermafroditas, com genitais indiferenciados
e com tecidos dos dois gêneros (mosaicismos), têm sua
identidade de gênero instável, maleável, moldável!
Se manipularmos convenientemente as crianças, elas
se adaptarão facilmente à situação que determinarmos, tal sua instabilidade
após essas 5 etapas biológicas (ele imaginava 3 etapas biológicas, as 3
primeiras apenas, e ignorava as outras duas) de diferenciação!
Essa fácil manipulação através da “criação” as
ensinará a serem como for mais conveniente para nós, adultos, quem elas sejam,
e assim o problema estará resolvido!
Como vemos o raciocínio de Money para os casos de mosaicismos
não estava equivocado, mesmo que OS MÉTODOS por ele propostos fossem sempre
desumanos e NADA ÉTICOS (a meu ver, uns 50 anos depois).
Mas o pior de tudo foi o fato dele haver generalizado
essa idéia, imaginando que todos: pessoas normais, hermafroditas, transexuais, crossdressers, intersexuais
tivessem uma identidade maleável, como imaginou Fliess
e admitiu Freud.
A idéia da maleabilidade generalizada da identidade de
gênero, determinada por Freud (então reverenciado como pessoa inquestionável),
reforçada essa posição pela sócio-psicologia
dominante, pela sociologia, pela antropologia e pelo humanismo
reducionista vigentes, se consolidou desde então como verdade científica, ensinada
e propagada pela academia, nas faculdades de medicina e nas universidades e
faculdades de psicologia. A academia se deixou contaminar pela generalização
inapropriada (não foi a primeira vez, diga-se de
passagem), e quaisquer manifestações dos pacientes à partir de então contra a
“verdade científica” seria apenas mais um sinal de seus transtornos e de seu
desequilíbrio.
Evidentemente pode-se induzir e coagir uma criança,
que tenha uma trajetória de formação da identidade de gênero muito conturbada
biologicamente, e que termina por se tornar oscilante com um atrator deformado e periódico, a se sentir mais ou menos
como gostaríamos que ela se sentisse.
Todo torturador sempre foi um especialista nisso,
desde o início de nossa civilização.
Mas nem todos foram considerados “deuses” ou
professores eméritos, nem tiveram tantas verbas federais para suas pesquisas e
sua divulgação.
A generalização de Money foi catastrófica, pois
gerou a necessidade de ser comprovada publicamente. Essa necessidade certamente
geraria pelo menos uma vítima (mas provavelmente muitas vítimas) e essa
vítima foi John/Joan, ou melhor, David Reimer.
David Reimer não era nem
hermafrodita nem intersexual. Ele foi vítima de uma
imperícia médica, quando seu pênis aos 8 meses de idade foi cauterizado.
Depois John Money sugeriu e autorizou sua castração
ainda bebê e depois sua transgenitalização, para o
feminino. Criado como menina deveria se adaptar, se a identidade de gênero fosse como em hermafroditas, tão instável (ou tão
indeterminada e maleável, como Money/Freud imaginavam).
Vejamos a trajetória de formação da identidade de
gênero de David Reimer:

No caso de David Reimer a
situação é totalmente diferente.
As 5 fases biológicas eram absolutamente estáveis,
convergentes, convergindo para um atrator masculino
como um ralo, como todos os homens normais.
Money atuar sobre uma identidade oscilante e
instável como de um hermafrodita era uma coisa, agora agredir uma identidade
estável era outra totalmente distinta em sua base!
Vemos que a coação sob tortura pode desestabilizar o
que era estável. Pode desestabilizar levando à psicose, certamente à depressão
e neurose, ao desejo de auto-mutilação
e auto-extermínio.
Pela reação posterior de David Reimer,
vê-se que a tortura da criação opressiva e imposta não é adequada e muito
menos eticamente aceitável, e é ineficiente para provocar a estabilidade em
outro atrator, MAS PODE SER EFICIENTE PARA LEVAR À
RUPTURA o atrator natural, o que significa o desepero, O AUTO-EXTERMÍNIO, O SUICÍDIO.
Um dia, DAVID SE SUICIDOU.
David era um menino normal, com formação normal e
harmônica da identidade, que naturalmente convirgiria
para o masculino como menino, num atrator simples ou sink (ralo).
A incompetência de um médico o fez como se fosse uma
criança intersexual, o que não era.
Tratado como se fosse intersexual,
foi torturado e coagido a se transformar em quem não era. Procurou-se destruir
sua identidade de gênero, e se conseguiu até certo ponto, sob tortura.
Depois, se sentiu como um transexual FtM e procurou ajuda, procurou a redesignação sexual.
Mas haviam-lhe retirado o que ainda teria, havia
sido castrado, retiraram-lhe os testículos, ainda bebê, quando não podia
gritar: NÃO!!!!! Não me mutilem!
Sofreu como transexual FtM.
Muito pressionado, em certo momento se suicidou.
Ainda hoje muitos defendem as idéias de Money...
Os casos
PAIS e sua vulnerabilidade às manipulações da “terapia do sexo de criação”,
assim como outros casos de intersexo.
Já vimos que os casos PAIS- partial androgen insensitivity syndromes levam a
formações muito complexas da identidade de gênero, e mesmo biologicamente estas
complexidades levam a oscilações e indeterminações potenciais e derivadas da
própria biologia nas 5 etapas de diferenciação biológica.
As trajetórias podem ser muito variáveis e
complexas:

Mesmo partindo de uma fonte puramente masculina, e
de gônadas masculinas, os genitais podem ser parcialmente masculinizados num
caso PAIS.
O SBN pode ser diferentemente masculinizado, pois o
processo de masculinização é diverso, os controles
são mais complexos (o SBN do cérebro basal é organizado por T-testosterona
e os genitais por DHT-dihidrotestosterona).
O CC-cortex cerebral tende
a ser mais concordante com os genitais, pois os processos, mesmo não idênticos,
são mais parecidos (ambos baseados na ação de DHT).
A identidade, meramente por fatores biológicos, pode
ser instável, com um atrator em período, ou seja,
numa trajetória existencial oscilante, independentemente do meio cultural e
social.
Só por fatores biológicos nas 5 etapas fundamentais a instabilidade estrutural existe nos casos PAIS, o
que faz com que essas pessoas se tornem mais vulneráveis a variações na
identidade de gênero, e assim mais vulneráveis a pressões, torturas e
coações externas, como as propostas pela
terapia do “sexo de criação” proposta por John Money.
Pelos mesmos motivos a maioria dos
casos intersexo se tornam vulneráveis, não só
os derivados de PAIS, a interferências externas. Nem só derivados de uma fonte
masculina. Fontes femininas também dão origem as casos de intersexo,
com as mesmas periodicidades e vulnerabilidades biológicas e estruturais decorrentes.
Para esses casos, novamente a “terapia” do sexo de criação,
DESDE QUE NÃO HAJAM COAÇÕES, pode ser adequada, já que
o paciente pode precisar de ajuda para encontrar a melhor solução genital e de
gênero, para si. Desde que CENTRADA NA HARMONIA DO PACIENTE, essa terapia pode
vir a se tornar uma enorme ajuda de enorme valia.
Os
transtornos de identidade de gênero
Existem situações típicas reconhecidas pela
Organização Mundial da Saúde, consubstanciadas em normas psiquiátricas como a
DSM-4 da APA-American Psychiatric
Association e nas SOC-6 da Harry
Benjamin International Gender
Dysphoria Association-HBIHDA, que estão classificadas
no CID-10 (décima versão do Código Internacional de Doenças) sob a rubrica
F.64.
Distinguem-se entre esses transtornos (preferimos
considerar DISCORDÂNCIAS DE GÊNERO, já que nem sempre derivam de verdadeiros
casos psiquiátricos) algumas situações típicas:
Transexualismo (F.64.0; F.64.2);
Crossdressing (CD) ou transformismo (F.64.1);
Situações não bem especificadas, entre as quais o Travestismo ou Transgenderismo
(TG) classificados como F.64.8.
Transexualismo
Vamos estudar as possíveis trajetórias do transexualismo, na formação da identidade de gênero:

Biologicamente essas pessoas apresentam alguma fragilidade
e instabilidade na formação da identidade de gênero, mas essa instabilidade é
menor que no caso do intersexo ou mosaicismo.
Mesmo assim, a vulnerabilidade a pressões,
coações e torturas ainda é maior que o normal, principalmente pela provável
bipolaridade de gênero interna no cérebro, a parte basal tendendo para um
gênero e a cortical para outro. Essas discordâncias bastante radicais geram
certamente oscilações de origem biológica posteriores na formação da
identidade de gênero. Quando as interferências externas, da família, da
cultura e do meio não são opressoras, mas concorrem
para a harmonia do paciente, essa instabilidade natural tende a regredir ou ser
minimizada a valores saudáveis. Quando o meio perturba, aumentando a
instabilidade, com agressões e repressões, forçando um inadequado “sex of rearing” por
exemplo, ou excluindo socialmente o paciente (ridicularizando, limitando
possibilidades profissionais e acadêmicas, restringindo a guetos como parias),
a instabilidade pode chegar a níveis próximos à ruptura.
A maioria dos casos de mosaicismos
e de intersexo, convenientemente estimulada pode se
adaptar e procurar estabilizar, com base numa “sugestão” externa. A pessoa
transexual dificilmente aceita ou se amolda a “sugestões” externas.
A ruptura, com auto-extermínio ou mutilações
genitais é freqüente.
A exclusão de oportunidades profissionais e sociais, pode levar à ruptura.
A ignorância de terapias mal elaboradas pode levar à
ruptura, assim como diagnósticos inadequados e tratamentos mal elaborados.
Cirurgias de redesignação genital mal elaboradas e irresponsáveis podem levar à
ruptura e auto-extermínio.
Por isso a
preparação e capacitação de profissionais de saúde para avaliação desses casos é essencial e fundamental.
Travestismo (transgenderismo-TG)
e Crossdressing-CD
Esses casos, mesmo parecendo ser congêneres do transexualismo, na dinâmica da formação biológica da
identidade de gênero são fundamentalmente diferentes.
Na formação biológica da identidade de gênero, as
pessoas transexuais sofrem de uma discordância interna de gênero entre os
tecidos do SBN e tecidos do CC e dos genitais e outras etapas anteriores, o que
leva a uma natural vulnerabilidade e a oscilações e periodicidades em sua
trajetória na parte final.
Essas vulnerabilidades biológicas derivadas de
discordâncias na biologia interna não existem necessariamente nos casos de TG e
CD.
Vide a trajetória nesses casos típicos:

Normalmente, a biologia não mostra sinais de discordâncias
internas, nem no SBN nem no CC, muito menos nos genitais.
Mas, devido a fortes experiências traumáticas
precoces, (ou a outros fatores possíveis, como fatores
românticos por exemplo) surgem casos CD e TG.
Não queremos dizer que todos os casos CD e TG têm
origem traumática, mas afirmamos
que em sua maioria, quando se pesquisa, se encontra etiologias em traumas
oriundos da infância nos casos TG e na infância ou adolescência nos casos CD.
Um exemplo interessante surgiu num
curta metragem, desenvolvido pelo Departamento de Cinema na Universidade
Estácio de Sá no Rio de Janeiro.
Foram produzidos por essa universidade, dois filmes
em curta metragem, um deles “Candidato Camaleão” do qual a
Dra.Torres participou, sendo entrevistada. Ela falou superficialmente
destes assuntos e o filme ficou muito bonito. Foi apresentado no cinema da
Estácio de Sá, e Dra.Torres participou de uma mesa sobre o assunto e o filme.
Isso tudo no dia 25 de Novembro de 2005.
Nessa ocasião um outro filme foi apresentado, “Lady Christiny” sobre uma transgênero.
Essa transgênero (TG) evidenc iou por sua história, que
sua disforia de gênero não teve origem em trauma mas como conseqüência de um
impulso tardio de direção homossexual, por uma pessoa específica (um estímulo
romântico)
Sem essa pessoa o impulso regredia, e a vontade de
regredir de sua situação de transformação TG aparecia.
Fatos da vida, mesmo tardios, instabilizaram
um pouco seu sistema de auto percepção, com
motivação muito específica.
Como vemos, nem todo caso TG é uma conseqüência
de trauma precoce, mas esse fato não elimina a
probabilidade dessa associação NA GRANDE MAIORIA DOS CASOS TÍPICOS TG.
Os traumas nos casos TG
geralmente são mais basais, na primeira infância, principalmente derivados de
REJEIÇÃO MATERNA (e a criança, quando originalmente masculina, tende mesmo a
identificar-se com a mãe (de forma MtF), por introjeção
de culpa... numa situação bem Freudiana... – e a criança originalmente
feminina, quando rejeitada, tende a odiar a mãe, numa reação FtM). Mas estes casos estão bem classificados como GIDNOS,
pois essas reações radicais de identificação são geradas por um estresse pós traumático (PTSD - post traumatic
stress disorder).
Os traumas
Essas regras são práticas e derivam da experiência
terapêutica, sem base teórica mais profunda, mas certamente são reais e
importantes.
A orientação sexual de
travestis (TG’s) é muito variável, sendo comum o desejo
bissexual, mas também, homo ou heterossexual. CD’s na
maioria são bissexuais ou heterossexuais... uma
minoria tem preferência estritamente homossexual.
Vítimas
da desestabilização de seu sistema
Tanto travestis (TG) como transformistas (CD) são vítimas
da desestabilização de sistemas anteriormente estáveis.
Já sabemos que a tortura, a pressão e a coação
(derivadas do exterior e de traumas e de estresse pós
traumático) podem desestabilizar um sistema estável, dependendo da
energia que se fornece ao sistema para perturbá-lo e desestabilizá-lo.
Voltemos ao pêndulo. A trajetória do pêndulo é um
vai e vem.
Fornecendo mais energia ao movimento, o pêndulo pode
se tornar um movimento rotatório em torno de um eixo.
Fornecendo mais energia, a corda do pêndulo pode
romper, e o movimento será absolutamente aleatório.
Tudo depende da energia com que se perturba um
sistema.
Sistemas instáveis como a identidade de gênero
(determinada biologicamente) em hermafroditas e intersexuais,
são facilmente desestabilizados por torturas, coações e pressões e por aconselhamento e boas terapias. Parecem moldáveis, devido a sua intrínseca
instabilidade estrutural biológica.
Sistemas medianamente estáveis como de transexuais,
são desestabilizados com maior dificuldade, mas com mais energia também são
desestabilizados (e por resistirem mais estoicamente, agredidos com violência
podem ser destruídos).
Sistemas estáveis, como o de David Reimer (homem polarizado, “normal”), de travestis (TG) e CD`s podem ser desestabilizados por muita energia ( trauma
na primeira infância, rejeição materna, abuso sexual, abuso e violência) ou
por “terapias autoritárias” como a do
sexo de criação de John Money.... ou por motivos
românticos, que podem desestabilizar qualquer um.
A
realidade clama por um Novo Paradigma
A simples genitalidade, a
realidade mostra, não basta.
A coação e tortura sistemática de crianças “como
terapia” não resolve. A cirurgia autoritária em bebês intersexuais podem gerar enormes dramas.
O conhecimento liberta.
O conhecimento da complexidade do processo biológico
de formação da identidade de gênero;
O conhecimento da possibilidade de desestabilização
dos sistemas formados biologicamente;
A vulnerabilidade de sistemas mais instáveis;
O respeito, edifica, restaura, harmoniza, regenera.
Todo tratamento de gênero, qualquer que seja, deve
estar sempre centrado na harmonia do paciente, e não nas idéias e nas teorias
do terapeuta.
Tudo isso leva a um novo paradigma.
Porque não propor um novo paradigma, para a classificação
das pessoas como homens, mulheres.... ?????
Bibliografia
Stewart, I – Does God Play Dice? The New Mathematics of
Chaos (1989) – Penguin Books, 1990;
Torres,WF & Jurberg,P – Ser
homem ou ser mulher:a identidade neuro-psíquica de
gênero
Torres,WF & Jurberg,P – A gender neural basal network and the dynamics
for gender identity formation – Presented at the XVth
World Congress of Sexology, Paris, 2001 – later published at GID Journal
1(1),2003, with the title: Gender Identity: a dynamical neuro-psychical
process ;
Torres, WF – Gênero: do Mito à Realidade – Dissertação
de Mestrado em Sexologia, UGF, 2002;
Torres,WF – Gender Identity formation thermodynamics – GID
Journal 2(1),2004;
Torres,WF – Gender Identity formation dynamics I –GID
Journal 2(2),2004;