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Ser Homem ou Ser Mulher: Eis a Questão

Dra.Torres, W, M.S.

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O mito de Falo

 

Como hoje definimos, ou melhor, classificamos alguém como homem ou mulher?

Que critérios consideramos para procedermos a essa classificação?

Qual é o critério prescrito pela legislação brasileira, conforme a legislação dos registros civis, previsto no Código Civil?

O critério de classificação de gênero hoje prescrito pela nossa sociedade, em seus códigos e leis, em sua tradição, é o critério genital. Esse critério é válido hoje, e tem sido validado ao longo de milênios, na realidade algumas centenas de milhares de anos, ao longo da história do homem.

Esse critério está introjetado no homem, em nossas leis e em nossa psiquê, de forma tão profunda, que depois que uma criança nasce com um pênis, ou mesmo enquanto feto no ultra-som mostra ter um pênis, já se afirma como coisa certa, que esse alguém tem que ser um homem. E vice versa uma mulher.

No passado, não muito distante para a escala de existência do homem como Homo sapiens sapiens (que hoje em dia estima-se ter surgido a aproximadamente 300.000 anos, na África), há uns 2.000 a 3.000 anos atrás, adorava-se na Grécia (Phalos, Dionisos) e em Roma (Príapus) e ainda mais penetrando no passado, no Egito (Min)  o falo como um deus, o mesmo ocorrendo ainda na Índia (Linga de Shiva). O deus Falo seria uma divindade mítica infalível, na transmissão da masculinidade para o todo do ser humano..... incluindo nesse todo sua psiquê. Muitos amuletos fálicos arcaicos dão testemunho dessa divinização fálica pelo homem (existem amuletos fálicos com pelo menos 40.000 anos na Europa, e devem existir outros ainda mais arcaicos na África).

Não é de se estranhar que nesses tempos antigos, o Falo, como o poder, fosse adorado como uma divindade... naqueles tempos, e mesmo muito depois, uma criança intersexual com qualquer problema de formação genital deveria ser imediatamente sacrificada...  pois não se podia desafiar os deuses, deixando que uma aberração dessas pudesse sobreviver e afrontar a divindade.

Mas o que é de estranhar é que...

 

O falo, mesmo hoje em dia, consideramos como uma divindade mítica infalível na transmissão da masculinidade, inclusive da psique! Dessa realidade não podemos esquecer! Nossa lei, nossos costumes, e mesmo nosso inconsciente admite sempre essa infalibilidade genital ATÉ OS DIAS DE HOJE...  nos tribunais e na academia...  nas nossas casas e em nossas mentes...

 

Essa relação da masculinidade com a presença do falo, e da feminilidade com sua ausência, além do embasamento teórico tradicional, está enraizado de tal forma na maneira  de pensar e de perceber as coisas do homem moderno, como do homem arcaico ... como se fosse um deus, o falo ainda impera na nossa forma social de reconhecer e classificar o gênero DOS OUTROS...

O nosso gênero, cada um de nós nem pensa nisso, quando está em harmonia consigo mesmo...  mas nem sempre a realidade é tão harmoniosa...

Mesmo na sociedade judia-cristã-muçulmana em que vivemos, que em principio seria devota de um Deus único e não diretamente pelo menos tão fálico, ainda agimos na prática quotidiana como se o deus Falo tivesse esse poder masculinizante absoluto, tornando-se automaticamente e de forma certa, o discriminador sexual por excelência.

Mas parece que essa divindade não é tão divina assim...

Vejamos, por exemplo, o caso de Roberta Close. Ela nasceu com uma tendência para desenvolver uma identidade feminina, por algum motivo, tanto que mesmo sem ser incentivada a isso, a desenvolveu naturalmente. Ela diz que sempre se sentiu uma menina num corpo de menino. Mas, mesmo hoje em dia, já transgenitalizada e toda adequada para sua identidade feminina, alguém a reconhece como uma mulher? Muito poucos...

A maioria a reconhece como um homem que quis "mudar de sexo"..... mesmo no meio "artístico".... apesar de ser uma das mais belas mulheres do país.

Ela, pela legislação e justiça brasileira, ainda é um homem, porque não reconhecem seu direito a uma cidadania (reconheceram apenas recentemente em 2005) feminina.... porque ainda somos devotos fervorosos do deus Falo, mesmo na nossa sociedade atual......

Será que o mito de falo tem razão de ser?

Nossa ciência tem avançado muito, desde o século XIX, mas principalmente no século XX. Na segunda metade do século XX, muito se desenvolveu a embriologia humana, que estuda como se desenvolve o feto humano no útero materno.

Quanto à diferenciação sexual, hoje em dia conhecemos detalhadamente as três primeiras etapas do desenvolvimento do feto humano:

 

1. Diferenciação sexual dos cromossomos: O ser humano tem 23 pares de cromossomos. O par 23 diz respeito à diferenciação sexual, os famosos cromossomos X (feminino) ou Y (masculino). Note-se que em todo ser humano, todos nós temos que ter pelo menos um cromossomo X, e podemos ter mais de um cromossomo X. Podemos ter ou não um ou mais cromossomos Y, mas pelo menos um X é obrigatório. Um organismo humano, apenas 46,0Y é letal, totalmente inviável; ao passo que o ser humano 46,X0 (síndrome de Turner) é viável. Uma mulher normal, então, será 46,XX e um homem, 46,XY. O que quer isso dizer?

 

Atenção!

1.Em princípio todo ser humano tem em si algum componente genético feminino para ser viável;

2. não existe realmente um processo de diferenciação, mas podem existir processos de masculinização de uma essência originalmente feminina;

3. para ocorrer alguma masculinização, há necessidade da operação eficiente de um agente masculinizador, em cada etapa da diferenciação.

 

2. Diferenciação sexual das gônadas: Um feto originalmente feminino (46,XX) , deverá naturalmente, apenas pelo passar do tempo, promover o desenvolvimento das gônadas em ovários. Para que se desenvolvam como testículos será necessária a ação eficiente de um gene denominado SRY que se encontra no cromossomo Y. Esse gene SRY será o agente masculinizador das gônadas em testículos.

O que são as gônadas? São glândulas, como pequenas fábricas de hormônios sexuais. Os ovários produzirão hormônios femininos (estrogênios e progesteronas) e os testículos, hormônios masculinos (androgênios), além de ambos, à sua maneira e a seu tempo, produzirem e maturarem as células para a procriação, os óvulos nos ovários e os espermatozóides nos testículos.

 

Importante!

4.Na etapa da diferenciação das gônadas, o principal agente masculinizador é o gene SRY, presente no cromossomo Y

 

3. Diferenciação sexual da genitália: Esta é a parte vital da diferenciação para a classificação de gênero em nossa sociedade, hoje em dia. Novamente, se não houver um  agente masculinizador, o "tubérculo genital" original, que inclui uma abertura vaginal, apenas amadurecerá e se consolidará de forma feminina, independentemente das etapas  anteriores. Isso quer dizer que mesmo sendo 46,XY, e tendo testículos, se o feto não tiver uma masculinização eficiente neste terceiro estágio de diferenciação do trato genital, os genitais permanecerão femininos.

Qual é o agente masculinizador desse estágio? São os hormônios androgênios. Quais hormônios são esses?

Os dois androgênios eficientes para a masculinização de todos os tecidos no corpo humano, fundamentalmente são: a testosterona -T  e a dihidrotestosterona - DHT. A testosterona é produzida pelas células de Leydig nos testículos, e pode ser metabolizada por uma enzima chamada 5-alfa-redutase, em DHT. Quem masculiniza os genitais externos (do tubérculo original se forma o pênis) e da vulva original se soldam os lábios formando a bolsa escrotal, onde futuramente se alojarão os testículos, é exclusivamente a ação de DHT. A testosterona não masculiniza os genitais externos, apenas a ação de DHT é suficientemente poderosa para produzir esse efeito biológico.

Qual o mecanismo celular da ação de DHT nos tecidos genitais?

O DHT ativa os genes receptores de androgênios (AR), que originalmente estão localizados no cromossomo X (no feminino!), e assim geneticamente é transmitido o efeito  biológico masculinizante dos genitais externos.

 

Importante!

5.As gônadas, entre outras funcões, são fábricas de hormônios sexuais;

6.os androgênios produzem o efeito biológico, pela ativação de receptores de androgênios, de masculinização dos tecidos;

7.o trato genital externo (penis e bolsa escrotal) é masculinizado exclusivamente pela ação eficiente de DHT, e não de T.

 

Como vimos anteriormente, nós acreditamos, até hoje, no mito de que o pênis, como o deus Falo, tem o poder de transmitir automática e infalivelmente para quem o possui, a masculinidade, inclusive psíquica.

Seria isso possível? Como isso se processaria?

 

O mito de Hermes (o mensageiro)

 

Freud, no final do século XIX e no princípio do XX procurou explicar a forma como o deus Falo transmitiria a masculinidade para a psiquê. Segundo ele, a criança humana nasceria psiquicamente gênero indiferenciada, como uma "página em branco".... e  a criança, com o tempo, vendo os seus genitais, tomando consciência de seus genitais, se convenceria de ser um menino ou uma menina.

Nos anos 50 do século XX, um importante psicólogo, professor emérito da  Johns Hopkins Medical School de Massachussets, EUA, estudando casos de hermafroditismo (mosaicismos), sugeriu com base na pretensa gênero indiferenciação psíquica do feto humano de Freud, que a criança, até seus 2 anos de idade, "aprenderia a ser menino ou menina", como aprenderia a falar (até os dois anos a criança aprenderia a falar e a se reconhecer), por ver a forma de seus genitais, e por sua criação psico-social gênero diferenciada.

Esse pesquisador, considerado então como autoridade máxima no assunto, escreveu vários trabalhos hoje utilizados como livros básicos para as faculdades de psicologia e medicina, quanto ao assunto gênero.

Em 1968, ocorreu um caso muito dramático com um gêmeo idêntico. Dois gêmeos idênticos foram circuncidados com oito meses de idade, e infelizmente um deles, por  acidente, teve seu pênis totalmente cauterizado, tendo o outro permanecido normal.

Os pais, em pânico, procuraram John Money, como autoridade máxima no assunto.

Money sugeriu ao casal, que se designasse cirurgicamente o menino que teve o pênis cauterizado, como menina, através de uma neovagina. Ele alegava que o menino aprenderia a ser menina, por ver que não tinha pênis como o irmão, se adaptando naturalmente a uma educação e criação feminina (assim o menino foi castrado- retiraram-se seus testículos- perdendo toda a capacidade natural de ter uma vida masculina posterior).

Money publicou em 1972 e em 1975 dois livros que se tornaram fundamentais para todos os interessados nos assuntos de gênero (vide referências no final),  alegando o total sucesso, com os gêmeos, de sua terapia. O menino acidentado teria alegremente aprendido a ser menina, e o irmão seria um menino normal.

Ou seja, a educação e o aprendizado social, como um mensageiro do deus Falo, como um Hermes mítico, proporcionaria à divindade fálica a forma de transmitir a masculinidade para a psiquê humana.

Durante as últimas décadas do século XX e no início do século XXI inúmeros trabalhos em neurobiologia, em neuroendocrinologia e em endocrinologia molecular, em seres humanos e em outros primatas (e roedores), têm evidenciado que o cérebro humano, desde o útero, em seus tecidos basais é gênero diferenciado.... e os estudos mais modernos de neuroinformática e neuroimagética indicam que, sendo a organização neural gênero diferenciada em sua porção basal, isso demonstra que a tradução psíquica virtual, consequência dessa diferenciação neural, também deve ser gênero diferenciada, indo por  terra os princípios básicos adotados por John Money.

Mas a evidência experimental dos gêmeos relatados por Money era muito forte, na academia sendo ainda considerada como mais forte que todas as outras evidências, pelos especialistas.

Surgiu então, em 1994 um pediatra da Universidade do Hawaí chamado Milton Diamond. Ele começou a investigar a situação atual vivida pelos gêmeos de Money, e qual não foi o seu susto, ao descobrir que o gêmeo designado como menina, HAVIA SIDO TRANSGENITALIZADO COMO TRANSEXUAL FtM (do feminino para o masculino), tendo passado por várias cirurgias de neofaloplastia, tendo casado com Jane, trabalhando num trabalho extremamente masculino no Canadá (como operário num matadouro), tendo três filhos adotivos e muito traumatizado estava inconformado com sua situação.

Em 2000, o gêmeo transgenitalizado (David Reimer), deixou que escrevessem sua biografia, contando toda sua história, onde ele diz que Money escrevia, com sua autoridade, o que queria, e não o que David efetivamente vivia.... enfim, houve um grande equívoco, ou mesmo uma grande manipulação científica.

O patrulhamento ideológico, na academia, até hoje a favor de Money, é enorme.

Em 2001 eu pessoalmente tive a oportunidade de ir apresentar trabalhos no XV Congresso Mundial de Sexologia, em Paris, e qual foi o meu susto ao perceber que quase ninguém conhecia a verdade da biografia de David Reimer, mesmo em Paris (até 2001 não havia tradução para o francês dessa biografia).

Agora o mito de Hermes, construído por Money, começa a desmoronar. O menino não aprende a ser menina, e não é menino apenas porque tem um pênis. E vice versa a menina.

O que, então, masculiniza ou não a identidade do ser humano? Quando? Como?

 

O mito de Hermes:

alguém aprenderia a ser menino ou menina, na infância.

A biografia de David Reimer mostra que esses conceitos surgiram e foram acatados por uma manipulação científica nada ética.

(em 2004 David Reimer se suicidou... perdendo o emprego e sendo abandonado pela mulher e pelos filhos.... e tendo também perdido o irmão gêmeo, não mais conseguiu suportar sua realidade de vida e se suicidou)

 

O referencial de gênero

 

Já vimos que o gênero é uma classificação social, feita por nós, hoje em dia com base no critério genital.... e quando ocorrem problemas imagina-se que pode-se ensinar a criança a se adaptar a nossas cirurgias de designação, quando feitas em bebês até os dois anos de idade.

Depois do desmascaramento de Money, e com as evidências da diferenciação da organização neural de gênero em sistemas fundamentais e basais, que participam ativamente da formação da identidade e da identidade de gênero (como a própria pessoa se percebe existencialmente, como menino ou menina, ou...), precisamos repensar nossos referenciais.

Porque um homem tem que ter um pênis, e todo ser que tem um pênis tem que ser um homem?

Em primeiro lugar nós sabemos que isso não é uma verdade absoluta e infalível, e em segundo lugar, será esse referencial genital o único no qual podemos nos basear para classificar o gênero de alguém? Não existirão outras alternativas, que sejam mais coerentes, mais adequadas, inclusive sendo mais éticas e humanas? Principalmente para crianças e pessoas que tenham problemas nesses sistemas, tanto na parte genital como na parte neural?

O que é mais importante para o ser humano: ter um pênis, ou o fato de se sentir um homem? Ter um pênis, ou o fato de se mostrar como homem?

Como sabemos que nosso vizinho é um homem? Porque o vimos nu, tomando banho, pelo buraco da fechadura? Ou o reconhecemos como homem, porque ele se mostra como homem, se comporta como homem, e se identifica como homem?

QUAL O REFERENCIAL mais importante, para se definir alguém como homem?

O fato de ter um pênis, ou o fato de se sentir e se mostrar como homem? Em outras palavras, qual o referencial de gênero mais importante? Qual o mais ético? O genital, o da identidade de gênero ou o do papel social?

Os genitais, o reconhecimento dos genitais, e a educação e criação, já sabemos são insuficientes e impotentes para moldar a identidade de gênero: como alguém se vê e se reconhece, como homem ou mulher. Outros fatores são decisivos nessa definição, e temos hoje evidências científicas de que o fator determinante é a diferenciação neural, que determina, ou pelo menos governa, a dinâmica da formação da identidade como síntese virtual.

Então surge um problema ético: é hoje em dia uma posição ideologicamente ética, de uma forma heterônoma e autoritária, classificarmos crianças, jovens e adolescentes, em outras palavras pessoas humanas, quanto ao seu gênero, usando como critério a forma como gostaríamos que elas fossem, à revelia de sua autonomia como pessoas?

Não é mais conveniente, e mais ético, classificar essas pessoas pela maneira como se auto-referenciam e por sua identidade e não com base numa divindade arcaica?

Quais as consequências nocivas à sociedade, de forma objetiva, se mudarmos social, jurídica e legalmente nosso referencial de classificação de gênero?

A pessoa normalmente harmônica de gênero, a grande maioria, em que o sexo neural (portanto da identidade), o genital, o de criação, o civil, o de papel social são intimamente harmônicos..... em nada seria prejudicada, com uma mudança de referencial.

 

Importante!

QUAL O REFERENCIAL mais importante, para se definir alguém como homem? O fato de ter um pênis, ou o fato de se sentir e se mostrar como homem? Em outras palavras, qual o referencial de gênero mais importante? Qual o mais ético? O genital, o da identidade ou o do papel social (expressão de gênero)?

O que tem entre as pernas, como se sente ou como se mostra?

 

Por outro lado, como veremos no segundo módulo deste curso de introdução a esses assuntos, as pessoas com problemas de gênero serão enormemente beneficiadas, social, psíquica e mesmo fisicamente, se atualizarmos esse referencial, alterando-o do genital para o neuro-psíquico como vivência da identidade.

Porque não????

Para não contrariarmos a divindade fálica que sempre adoramos, mesmo inconscientemente?

 

A formação da identidade de gênero

 

Vamos imaginar uma situação muito possível e muito real:

Vamos simular a dinâmica de formação da identidade de gênero numa criança harmônica de gênero:

 

1º Passo: Admitamos um feto 46,XY, com ação eficiente do gene SRY, gerando no momento exato testículos, e estes operando eficientemente, produzindo testosterona-T  e esta sendo normalmente metabolizada pela enzima 5-alfa-redutase presente e atuante em DHT. Os genitais externos sendo conformados masculinamente pela ação eficiente de DHT em AR, que não apresenta qualquer insensibilidade na recepção e ativação por DHT. Assim, o atrator do gênero inicialmente feminino (porque humano), aos 3-4 meses de gestação se deslocará para o masculino.

 

2ºPasso: Admitamos que de forma harmônica, pelo processo que for, o SBN – social behavior network, definido por Sarah Newman em 2000 na Cornell University (a parte basal do cérebro que é organizacionalmente gênero diferenciada desde o útero em todos os primatas humanos e não humanos) desse feto tenha sido harmonicamente masculinizado. Neste caso o atrator de gênero (masculino ou feminino) permanecerá atraindo masculinamente como num vortex, atraindo o eu virtual que se forma para um ponto definido de masculinidade.

 

A masculinidade ou a feminilidade neural funciona como um atrator da psiquê virtual, ou como um fractal da identidade de gênero, que pode ser feminino, masculino ou.... oscilante como um pêndulo, ou mesmo... estranho (essas denominações e esses conceitos são usados na dinâmica de sistemas complexos... como é complexo esse sistema de desenvolvimento da identidade de gênero).

 

3ºPasso: O feto não é um ser fora de um meio ambiente. O meio ambiente do feto é o útero da mãe, e ele troca informações orgânicas pela placenta. Portanto o feto tem uma genética, dentro de um meio ambiente. Quanto mais tranquilo for esse meio ambiente para o feto, melhor será seu desenvolvimento, neural inclusive, com um mínimo de perturbações.

 

4º Passo: A parte cortical do cérebro começa a diferenciar e continuará se diferenciando, principalmente até o final da adolescência, pela ação de DHT e não de T... num processo parecido mas não necessariamente idêntico ao da diferenciação genital.

 

5º Passo. O bebê nasce. É reconhecido como um menino normal, por seus genitais. Charutos, tudo recebe a cor azul. O menino vai ser criado como menino.

 

6º Passo: Ele é um menino harmônico, porque neural, genital, social e educacionalmente ele se reconhece como menino, e é reconhecido como menino. Nunca passa pela cabeça dele que poderia ser menina, ou que gostaria de ter sido menina ... simplesmente é um menino, e não questiona essa realidade, que é inerente à sua identidade. Todos os reforços internos e externos confirmam essa realidade. Cada vez que seu sistema nervoso recebe um estímulo externo, pelos seus sentidos, esse estímulo atua no seu córtex específico gerando disposições. Essas disposições são transmitidas, via córtex pré-frontal (zona de convergência da síntese do eu virtual) para todos os núcleos, que reagem a esses impulsos, de forma masculina, porque o SBN-Social behavior network, definido por Newman, 2000 é masculino. A criança tem, em todos os níveis, harmonicamente, as reações esperadas de agressividade, atividade, de gostos e atitudes tipicamente masculinas para um menino de sua idade; além disso, recebe o incentivo social que reforça consistentemente essa masculinidade interior....e tudo se passa tão naturalmente, que ninguém percebe que poderia ser diferente, se houvesse alguma discordância de gênero neural interna. Tudo nele se desenvolve de forma masculina, tudo coopera para que a identidade masculina se desenvolva, como toda a água de uma pia naturalmente vai celeremente para o ralo da pia... o ralo aqui é a masculinidade.

 

Mas como esse menino, depois um rapaz um dia vai amar alguém?

 

Não sei, a vida vai definir. Ele poderá vir a gostar de mulheres, de homens ou dos dois. Ou só de loiras, magrinhas e altas. Ou baixinhas e morenas. De cabelos compridos, ou curtinhos....ou de rapazes loiros de olhos azuis... tudo isso, a complexidade da vida irá proporcionar, mas esse menino, quanto ao gênero, venha a ter o comportamento que for, é um rapaz harmônico de gênero.

 

O modelo, a ética e a realidade

 

Geralmente nós confundimos um modelo com a realidade. Quando imaginamos, ou desenvolvemos um modelo, o identificamos com a realidade. Esse é um equívoco epistemológico grave.... porque nossos modelos nunca passam de modelos.

Sempre que idealizamos nossos modelos como se fossem a própria realidade, ou a expressão da realidade, nós excluímos, estigmatizamos, desconsideramos algumas, ou mesmo muitas pessoas humanas.

Por exemplo, tradicionalmente temos considerado o referencial genital, e não o da identidade, para a classificação de gênero. O Código Civil do Brasil, em sua legislação sobre os registros civis, considera a condição genital como "certa" e "fidedigna". Ou seja, idealiza o modelo, identificando-o, de forma absoluta, com a realidade. Um equívoco epistemológico grave, que estigmatiza todas as pessoas com algum dos muitos possíveis problemas de gênero. Depois do registro civil, essas pessoas, se mostrarem que a realidade, no caso delas, não se adapta ao modelo, serão classificadas como "querendo mudar de sexo", por exemplo.... o que não é verdade...... apenas elas não se adaptam ao modelo de classificação genital artificialmente criado por nós..... o que as exclui e estigmatiza socialmente.

Em ciência, nunca, por melhor que seja, nenhum modelo será equiparável à realidade.

 

O modelo que eu proponho desde minha dissertação de mestrado em sexologia que desenvolvi entre 2000 e 2002 é este, centrado na autonomia da identidade, na diferenciação neural e na formação da dinâmica da identidade, independentemente da conformação genital. A meu ver ele é adequado para as pessoas harmônicas de gênero (como já vimos), e como mostraremos no módulo dois deste curso, é também adequado para as pessoas com problemas de gênero (chamadas de disfóricas de gênero ou com variância de gênero, ou mesmo como tendo um transtorno de identidade de gênero), mas não simula bem a realidade de pessoas andróginas de gênero, por exemplo, que são raríssimas mas existem (pessoas indiferenciadas psiquicamente de gênero, e que geralmente o são também genitalmente), e como seres humanos são importantes e um modelo melhor que o meu ainda há de contempla-las com a dialética do conhecimento.

 

Portanto, os modelos científicos, e os códigos e legislações, existem para o homem, para servir eticamente a realidade vivida pelo homem, inclusive suas minorias, e não o homem para as leis, códigos e teorias. Ao invés de discriminarmos crianças e jovens inocentes, devemos adequar nossos códigos e nossas leis, levando em consideração referenciais mais amplos, mais reais, mais científicos, e menos míticos.

No próximo módulo entraremos em maior profundidade nas considerações sobre os problemas de gênero.....

 

Para conhecer mais

 

COLAPINTO,J (2000)--- As Nature Made Him --- Portuguese translation: Sexo Trocado- a história real do menino criado como menina, Ediouro, 2001;

DIAMOND,M (1996)--- Prenatal predisposition and the clinical management of some pediatric conditions, Journal of Sex & Marital Therapy, 22(3) 1996;

DIAMOND,M & SIGMUNDSON, HK (1997)--- Sex reassignment at birth: longterm review and clinical implications, Archives of Pediatric & Adolescent Medicine. 151, 298-304, 1997;

FREITAS, M C---Meu sexo real: a origem inata, somática e neurobiológica da transexualidade, Editora Vozes, 1998;

MONEY,J & ERHARDT,AA---Man and woman; boy and girl: The differentiation and dimorphism of sexual identity from conception to maturity, Johns Hopkins University Press, 1972;

MONEY,J & TUCKER, P --- Sexual signatures: on being a man or a woman (1975), tradução em português como “ Os papéis sexuais”  por Editora Brasiliense, 1981;

TORRES,WF & JURBERG,P (2000)--- Ser homem ou ser mulher: a identidade neuro-psíquica de gênero como fator determinante, Scientia Sexualis, 6(3), 2000;

 

Encontra-se publicado com acesso gratuito na Gendercare.com.

 

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