Normal é a Diversidade

por Martha Freitas


O ser humano tem, ao longo de sua história pós-glaciação, há mais ou menos 12 mil anos, se equivocado muito sobre sua posição no mundo, na vida....na história.... e principalmente, quanto aos seus valores.

Oriundos do chimpanzé, nosso ancestral de quem nos diferenciamos há aproximadamente 5 milhões de anos, trazemos em nós, em nossa genética e em nossa estruturação cerebral, o que herdamos deles.
Eles são como nós, primatas, macacos extremamente agressivos.... geralmente neuróticos.... algumas vezes psicóticos. Para saber mais sobre eles, pesquise a excepcional obra de primatologia de Jane Goodall, principalmente nas florestas de Gombe, no coração da África.

Saber mais sobre eles, os chimpanzés (Pan trogloditas), é saber mais sobre nós. Porque eles são o que fomos ontem, e nós somos uma das possibilidades do desenvolvimento deles no amanhã relativo a eles.
Mas eles não deram origem apenas a nós, mas também aos bonobos (Pan paniscus), muito parecidos com eles fisicamente, mas muito diferentes quanto à estabilidade psíquica e emocional. O paniscus é dócil, afável, muito pouco agressivo....nada neurótico, nunca psicótico. Sem ter consciência de sua realidade, da realidade de seu mundo, o homem gerou uma fantasia neurótica cultural multimilenar como se este fosse o seu mundo.... gerou mitos grotescos, e tabus ridículos. Culturas se arvoraram em superiores, tribos e raças idem.... mostrando e expondo nossas fraquezas psíquicas endógenas.....e sempre desprezando nossa origem africana, negra, tribal.... em função de uma fantasia européia e ocidental.
Esse fato no Brasil é gritante, quando se ensina que quem descobriu o Brasil foi seu Cabral.....ele não descobriu nada, ele invadiu. Quem descobriu foram os asiáticos, que se infiltraram no Brasil e no resto das Américas uns 20 a 30 mil anos antes do invasor europeu.
Criamos deuses, apavorados com a realidade. Absolutizamos divindades, seitas, religiões, pontos de princípio, ideologias, culturas e dogmas..... e desenvolvemos o conceito de normalidade ....e usamos e abusamos dele, para oprimir o outro, o não si mesmo, o diferente.

Nos USA, debaixo da "Bush administration" principalmente, o normal é ser branco, anglo saxônico, judeu ou cristão, principalmente protestante.... se possível capitalista.... ou banqueiro, pelo menos um burocrata de estado.... eminentemente heterossexual em sua forma de amar.....agressivo e violento na sua forma de odiar..... arrogante e repressor na sua forma de oprimir.

Nos outros países e culturas ocidentais, esse padrão norte americano aceita variações, mas não muito radicais....esse é o padrão de normalidade....alguém bem inserido no meio social....maleável para a satisfação da maioria.... radical em seus princípios "morais ou moralistas", realmente religiosos e ideológicos.... o bom menino, a boa menina.... o bom profissional e chefe de família....e daí por diante.

Não é isso que nos mostram nossos primos e nossos avós, Pan. Takayoshi Kano e Frans de Waal mostram a diversidade entre os paniscus, e Jane Goodall mostra a extrema diversidade entre os trogloditas.

A pequena diversidade, existe entre os unicelulares.... as bactérias, e as formas mais rudimentares de vida. Organismos muito primitivos têm efetivamente um, ou poucos, comportamentos "normais". Os mamíferos já não apresentam um grau de uniformidade muito grande, e o macaco menos ainda.

Não podemos nos esquecer do que escreveu Kipling em seu Mogli. Todos os animais eram aceitos como bons, na floresta da India....menos os primatas....porque não eram confiáveis!
Porque entre os primatas, a diversidade intra espécie já é muito grande.... e entre os primatas, os mais diversos somos nós.

Para nós,

Normal é a Diversidade

e neurótica, e algumas vezes psicótica, é a busca, e a exigência da uniformidade. A busca é neurótica, e a exigência é psicótica.

A Diversidade das Percepções

por Martha Freitas

 

 

A mesma realidade pode ser percebida de diversas maneiras, dependendo do percebedor. Por exemplo, o Judiciário julgar que seus proventos não são privilégios absurdamente exagerados, minando ridiculamente a reforma da previdência pública preconizada pelo Presidente da República, procurando impedir que a mesma seja aprovada no Congresso Nacional.  Esquecem que do ponto de vista do povo, privilégio é privilégio.....e para um povo de miseráveis, esses privilégios são revoltantes e inaceitáveis. Do ponto de vista dos privilegiados e aproveitadores, sanguessugas da nação, privilégios são "prerrogativas", mas não para o povo.

 

 

 

Dias atrás, abalada por minha revolta contra o presente estado de coisas contra o povo brasileiro, pelo boicote às justas reformas propostas pelo Presidente Luiz Inácio Silva, boicote este capitaneado pelo Judiciário na pessoa de seu líder e presidente de plantão, já que esse presidente nunca foi eleito pelo povo, e nunca teve respaldo popular para a função que exerce, sem controle externo da população, que controla pelo voto o Executivo e o Legislativo, mas fica à mercê dos desmandos do corporativismo do Judiciário, perguntei à Anna Braga:

Anna, me pergunte alguma coisa... para eu poder escrever..... estou muito deprimida, como espero que toda a nação comigo esteja,  para escrever de moto próprio sobre qualquer assunto.

Ela perguntou:

Me explique porque algumas transexuais, antes de fazerem a cirurgia de redesignação sexual, desistem.

Eu complemento a pergunta de minha amiga:

Algumas, depois da cirurgia, se arrependem? Porque algumas se suicidam antes ou depois da cirurgia?

 

A resposta é extremamente difícil de ser dada, e muito complexa. Mas, como bem dizia o filósofo Dadá Maravilha, para toda problemática, tem uma solucionática. Vamos pensar nessa solucionática. Não uma solucionática tipo a proposta pelo Judiciario, tão alegremente incorporada pelo Legislativo, sobre a reforma da previdência .... não somos agricultores, que são cidadãos de segunda categoria.... nós somos de primeira, merecemos perpetuar nossos privilégios, que não são privilégios, mas prerrogativas! Assim pensam, e afirmam publicamente, nossos "magistrados". Magistrados esses, bem ao nível de meu filósofo, Dadá Maravilha. O Dadá que me perdoe essa comparação que o desqualifica e o desmerece.

 

Antes de mais nada, quem é uma transexual MtF, do masculino para o feminino?

Obrigatoriamente, é um ser humano, que ao nascer, por seus genitais masculinizados, foi confundido com um menino, mas que depois mostra ter um cérebro, que em algum momento, e por algum processo, foi discordantemente mantido feminino e não masculinizado. Esse cérebro gera uma identidade feminina, apesar dos genitais masculinos e das pressões sociais e culturais para uma vida masculina, e da expressão de masculinidade ser socialmente esperada para essa pessoa.

O que faz a criança?

 Ou se mostra, em sua feminilidade inesperada, ou se esconde. Se esconde em sua solidão, criando um mundo particular seu,  longe dos outros....em seu quarto, longe de irmãos, de pais, de família....criando um mundo quase autista, particular.

Quem se mostra, sofre uma bárbara repreensão, e uma pressão truculenta. Algumas sobrevivem, outras sucumbem. Muitas, expulsas da casa, e da própria vida, se vêm forçadas a se prostituirem, quando não se suicidam.

As que se escondem, dão margem a traumas e frustrações, todas elas ....  a neuroses algumas ou quase todas.... e psicoses umas poucas.

 

Como compreender essas pessoas?

Primeiramente, sendo uma delas. Sem ter esse tipo de problema, em si mesmo ou na família....sem existencializar essas realidades conflitantes em si, não é possível compreendê-las plenamente.

Mas não basta ser uma delas.

É preciso também ser um profissional de saúde, para poder diagnosticá-las, avaliá-las, tratá-las e orientá-las.

Mas que tipo de profissional de saúde?

Basta ser um médico, ou um psicólogo ou sexólogo, com vários Ph.D.?

Nenhum médico pode diagnosticar um caso desses, apenas com seus conhecimentos médicos atuais, sem proporcionar enormes riscos para a vítima de seu diagnóstico. Nenhum exame laboratorial superficial nada evidencia.... cromatinas, dosagens de hormonios, nada representam....e os exames mais profundos, em nível molecular e/ou genético e neurobiológico, ainda precisam ser desenvolvidos, se o forem algum dia.

Não, nenhum deles pode diagnosticar com segurança um caso desses, apenas com o que sabe em sua especialidade, com todos os seus Ph.D's.

 

Uma comissão de doutores? Como afirma o CFM-Conselho Federal de Medicina, em suas resoluções?

A soma das ignorâncias, gera apenas uma ignorância maior e mais diversificada.

 

Uma comissão de especialistas, M.S.'s e Ph.D.'s? Como sugere as SOC-6 (Standards of Care, version 6 de 2002) da HBIGDA-Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association, que "inspirou" as resoluções do CFM, mesmo que a elas ele não se refira?

Dependendo dos especialistas, a soma da ignorância..... dará o mesmo resultado já aventado anteriormente.

 

O que fazer? O que?

 

Sempre que temos uma dúvida, devemos pensar. E para pensarmos, precisamos antes de mais nada, aprendermos a pensar. Infelizmente, a educação no Brasil  não ensina a criança e o jovem a ter o hábito de pensar..... a aprender a pensar.... mas apenas a decorar, imaginar, obedecer..... a criatividade no imaginar, não é pensar.

Quem ensina a pensar, não é a medicina, nem a psicologia..... elas ensinam a decorar, obedecer, repetir..... e quase nunca a pensar.....

Ensinar a pensar é função da Filosofia..... e dentro da filosofia, da Lógica e da Ontologia.... das quais se serve também, a Matemática.

O que quero dizer  é que sem uma boa base filosófica, e um pensamento lógico, sistêmico e abrangente, não se pode conhecer e diagnosticar, com segurança, esses casos.

 

Quando pensamos sobre essas pessoas.....

 

Vemos que elas, desde crianças, se encontram num verdadeiro beco sem saída. Para pais, mães, e no meio em que vivem, na aurora de sua existência, elas vivem a terrível situação de terem de explicar, ou pelo menos externalizar e expressar, o inexplicável, ou seja..... gente, apesar de eu ter nascido com um piu piu, eu Não Sou um menino como pareço ser, porque Não Me Sinto menino. Isso, de alguma maneira, vem de dentro de mim, eu não posso escolher ou controlar.... eu sou assim, não sei porque, mas aconteceu isso em mim.... desde que existo.... eu me encontrei assim. Não me sufoquem, não me destruam..... me ajudem e compreendam a dificuldade extrema em que me encontro.

 

A pessoa humana, é hipercomplexa. Em todos os sentidos. Na realidade biologica e na realidade psiquica virtual, especialmente. O conjunto que gera a identidade de gênero, composto do todo do ser, é extremamente complexo. O cérebro, a fonte basal principal dessa geração, é extremamente complexo. A relação do cérebro com o resto do corpo.....a relação do cérebro e seus sensores corporais externos e internos com o meio ambiente, é ainda mais complexa. A relação do cérebro com a identidade virtual por ele gerada como um EU, é sentida e vivida como uma realidade autonoma, da mais absoluta complexidade. A relação desse EU com a realidade do resto do corpo, e com o exterior, é fantasmagoricamente complexa. A relação desse EU virtual, com a virtualidade da construção cultural e social de um meio humano, de um "umwelt" humano, é ainda mais complexa.....

No meio desse oceano de complexidades,  se não pensarmos apropriadamente, imediatamente  dizemos apenas pela percepção ou suposta percepção dos genitais (que geralmente não conhecemos mas "desconfiamos"), ou da voz inesperadamente grave, ou do jeito um pouco exagerado, ou do tamanho corporal avantajado, ou das pelosidades excessivas ou das musculosidades características, ou da largura dos ombros, ou da força do biceps, ou pela presença de um "gogó", ou pelo tamanho do pé.... muitas vezes apenas pela onipotência de um papel de identidade ou de uma certidão de cartório, classificamos o outro que desconhecemos radicalmente..... como se o conhecêssemos perfeitamente.

 Ele tem que ser homem, é um menino!

 

Hahaha! Quanta ingenuidade, e que maligna ignorância! Que prepotência e intransigência!Que ilusão! Que falta de percepção da realidade! Que situação de verdadeira esquizofrenia profissional e social!

Nossa ignorância é profunda. A soma de todas nossas ignorâncias sobre esse assunto, a torna Kafkeanamente de uma profundidade abismal.

 

Os melhores artigos medicos e cientificos sobre o assunto, nos nossos simpósios e congressos, hoje em dia assim apresentam uma transexual MtF: 

Chamam-na de "transexual masculino".....classificam-na ignorantemente como "primário ou secundário".... não se sabe bem porquê..... é ela é diagnosticada pelas "equipes pluridisciplinares" como um "um homem que quer mudar de sexo". Diriam mais, certamente...."o" paciente geralmente, "a priori", nestes casos, é taxado e  classificado como "homossexual"..... mesmo que , devido a seu sofrimento, tenha toda a vida se assexuado.....!!!

 

Como vemos, pela própria terminologia científica e médica usada neste país, se pensarmos, o que é raro e difícil, eu sei, percebe-se o tamanho do abismo a beira do qual fica a avaliada vítima..... se avaliada por esses "especialistas".

 

Como Deus, pela Biblia, nos fez homens e mulheres, segundo muitos..... e mesmo de vez em quando Ele, por Sua ação na natureza fazendo umas irmãs siamesas com o cérebro ou outras partes do corpo compartilhadas, e outras monstruosidades, imagino que por descuido mas não intencionalmente..... no caso das pessoas transexuais, a culpa pelo engano é sempre delas e nunca Dele ou da natureza por Ele criada (sobre assuntos de sexualidade, ao que tudo indica, ele é tão neurótico como seus representantes.... e zelozamente, jamais se equivoca nesses assuntos, como quando faz as irmãs siamesas), ou de seus representantes, que demonstram não entender nada do assunto, apesar de se julgarem o fio de prumo da verdade e  moralidade, tanto católica como protestante, judia ou muçulmana.

 

Como podemos, de forma sensata, adotar critérios para avaliar esses casos com segurança?

1. Precisamos de um avaliador que tenha vivido intimamente esse problema.

2. Precisamos que esse avaliador seja um profissional de saúde.

3. Precisamos que esse profissional tenha aprendido a pensar.... com uma base filosófica ou matemática, em lógica, forte.

4.Mas nada disso  servirá para nada, se o avaliador não tiver outros conhecimentos e qualidades, sobre quem é o ser humano, numa visão Sistemica e não Cartesiana da medicina, psicologia e da sexualidade humana como um todo, e do cérebro e da formação da identidade de gênero em particular.

5. O avaliador precisa ter uma sabedoria "chinesa", ou "índia"..... e uma conceituação Sistêmica e abrangente do que é Saúde...... do que é Harmonia......  do que é Realidade. A visão médica, alopática e Cartesiana, reduz historicamente a realidade da sexualidade humana aos genitais e à reprodução.

Para conhecer a realidade de alguém, os índios dizem, você precisa caminhar alguns quilômetros com os seus sapatos.....  só então se pode começar a ter uma idéia de quem é, o que vive, o que experimenta, o dono dos sapatos. Dentro deste sentido, os etnólogos bem sabem que, para estudar uma cultura, é preciso penetrá-la em suas realidades mais íntimas..... e para penetrá-la, você precisa previamente abrir mão das suas realidades e de seus valores.... precisa conhecer a língua deles..... suas histórias, costumes, pontos de princípio....não só conhecê-los, mas vivê-los, se possível com eles.

Uma ótima e didática técnica para alguém que queira participar de uma equipe multidisciplinar de avaliação desses casos, é se travestir, e sair às ruas, vivendo seriamente, por poucos instantes que seja, a realidade que muitos "especialistas" exigem seja vivida, no mínimo por dois anos, pelas pessoas transexuais, em sua "terapia". Provavelmente, depois de uma ou duas experiências dessas, passariam a pensar melhor em suas "exigências terapêuticas" e em seus "métodos terapeuticos". Ou aprenderiam mais verdadeiramente a realidade, respeitando as vitimas, ou mudariam de especialidade.

6. Depois de tudo isso, o avaliador precisa de métodos. Em psiquiatria existem testes para avaliação se a moça transexual é assim por estar "pirada" e fugindo da realidade, ou não. Bem aplicados e interpretados, o que raramente soe acontecer, eles podem ser úteis.Infelizmente, a maioria dos testes é boa, mas os métodos corriqueiros de avaliação são totalmente inadequados, como o Exner para a avaliação do Rorschach, por exemplo.....e apenas a escala clínica 5 do MMPI para a avaliação de masculinidade ou feminilidade.

Outros testes começam a surgir, para avaliação da identidade, inclusive os testes da Gendercare, que têm se mostrado extremamente eficientes. Mas existem outros que podem servir de indicação, como o Cogiatti, por exemplo. Os testes gratuitos da Gendercare, e o Cogiatti, também gratuito, estão disponibilizados na internet em     www.gendercare.com/testes/tests.html

Um teste anatômico, ou genético, diretamente medindo-se estruturas, no cérebro, tem sido desenvolvido em fMRI (ressonância magnética), no Japão pela Dra.Kawamura e sua equipe de médicos (ela é engenheira).... mas ainda está longe de ser conclusivo e preciso com capacidade diagnóstica.

7. Além de tudo isso, você precisa ter muita sorte, para não se equivocar em casos mais complexos.

 

A equipe pluridisciplar precisa ter essas características, para poder avaliar estes casos..... coisas que infelizmente o CFM não mencionou, mesmo porque não entende nada sobre o assunto, mesmo querendo passar um projeto de lei no Senado Federal (PL 25/2002 ), sobre o "Ato Médico", em que querem ser, de forma mercantilista e corporativa, os únicos competentes para todos os diagnósticos no país, tutelando todos os outros profissionais da área da saúde, em todos os assuntos de saúde.

Quem faz uma proposta medieval dessa, propondo escravidão e tutela pelo simples interesse do lucro e reserva de mercado, não sabe , mesmo, pensar, evidentemente. Ou acha que nós, e os senadores, não sabem. Espero que os senadores saibam.....e rejeitem esse projeto arrogante e ridículo.

Mas voltando ao assunto, a equipe pluridisciplinar, composta de um profissional consciente e habilitado, ou de  uma multidão de profissionais da área da saúde, cujas habilidades se somem de forma eficiente e coerente, precisa preencher, no mínimo, TODOS os 7 requisitos acima mencionados.

E mesmo assim, equívocos podem ocorrer. Mas nesse caso, serão raríssimos, realmente.

 

Erros de diagnóstico, levam ao arrependimento e suicídio. Muitos casos nesse sentido já aconteceram. Incompetência e despreparo dos avaliadores. Confusões entre travestismo e transexualismo, levam a erros de avaliação. O despreparo da "equipe de especialistas" pode ser fatal. Casos mal avaliados de problemas mentais graves, idem, mas são raros.

O outro fator que leva à desistência perguntada pela Anna, é o medo. Medo e desconfiança na equipe avaliadora. Principalmente, com relação à técnica cirúrgica de redesignação a ser empregada. Medo da impossibilidade do prazer após a intervenção cirúrgica. Medo da estenose (fechamento) do canal vaginal após a cirurgia, o que em alguns casos chega a ocorrer. Medo da incompetência do cirurgião, o que infelizmente, pelo descaso para com o treinamento de especialistas nessa área, é comum de acontecer, no Brasil. Medo da rejeição social após a cirurgia. Medo da falta de oportunidades sociais e profissionais. Medo, medo, medo.....

Outro fator importante, além do medo, é o cansaço. Muitas equipes, levam anos avaliando e reavaliando.... perguntando sempre as mesmas coisas, obtendo as mesmas respostas, e não saindo do lugar. Muitos "avaliadores", usam essas equipes para desenvolverem suas teses de doutorado.... e depois de terminada e defendida sua tese, abandonam essas pessoas e seu atendimento. Usados como cobaias e inocentes úteis nesses casos, muitos se deixam vencer pelo cansaço.

Outros, se deixam vencer pelo tempo..... pela idade. A idade certa para a avaliação, como faz na Holanda Peggy Cohen Kettenis, Ph.D., uma psiquiatra avaliadora competente, é do nascimento aos 12 anos de idade. O menino "efeminado" pode ser menina, e vice versa. A correção hormonal à partir dos 13, e a cirurgia aos 16, curam, literalmente, a criança, desde que haja qualidade médica e cirúrgica envolvida, e haja qualidade social para o acolhimento e inclusão da vítima durante a fase de avaliação e transição, e após a redesignação. Mas aqui, nossa ignorância proíbe, pelo CFM, as cirurgias antes dos 21 anos.... e a avaliação e tratamento antes dos 18.....pode? São esses que, arrogantemente, se julgam os únicos "diagnosticadores" de tudo!

Quase todos, no Brasil, se deixam vencer pela miséria. Uma cirurgia de primeira, na Thailandia, com o Dr.Suporn, hoje  considerado o melhor do mundo, não sai por menos de US$ 11 a 12.000,00, para uma paciente brasileira. Fica perfeita, em todos os sentidos, mas é um recurso para poucas. Nos USA sai uns 50% acima disso. No Brasil, temos dois cirurgiões confiáveis, mas que usam uma técnica boa, mas não a melhor: Dr.Jalma Jurado em Jundiaí e Dr.Carlos Cury em SJose do Rio Preto. O preço varia entre um mínimo de US$ 3000,00 (Cury) e um máximo de US$ 6-8000,00 (Jurado). Ou seja, por menos de US$ 3-4000,00 nem pensar..... uns 9 a 12 mil reais, que devem ser pagos à vista! Um carro popular com 1 ou 2 anos de uso, na melhor das hipóteses.

Infelizmente, não tenho notícias de nenhum bom cirurgião que queira ser treinado na Thailandia, para aprender, e trazer para o Brasil a melhor técnica. Eles preferem não investir nada de seu para honestamente se qualificarem, e apenas investem contra a saúde de suas vítimas, experimentando em meninas suas ignorâncias e inabilidades como cobaias.... afinal, são apenas "transexuais"!

Quem pode pagar por uma cirurgia de primeira na Thailandia, ou pelo menos uma cirurgia das confiáveis no Brasil?

Planos de saúde inexistem. O SUS, nem se fala, esse parece que já nasceu morto.

 

O outro fator importante, é a inaceitação social, a dificuldade em existir como um ET, como um Edward mãos de Tesoura..... numa sociedade preconceituosa, medíocre e ignorante, como esta nossa.

 

Mas a força da identidade de gênero, de alguma forma ainda durante a gestação impressa de forma  não totalmente conhecida, em partes basais fundamentais do cérebro, é enorme. Essa identidade vence medos, destrói barreiras..... e quando compreendida e bem diagnosticada, após as correções necessárias, providenciadas de forma respeitosa e da melhor qualidade, são vivificantes para a vítima, que se fosse aceita socialmente sem restrições ignorantes, como ocorre na Holanda, passaria a ser uma pessoa normal, com suas idiossincrasias, como cada um de nós temos as nossas.

O lado sombrio dessa realidade, é que essa força da identidade de gênero, quando não vivida e expressada em harmonia  e saúde vivencial de gênero, com seu corpo adequado, leva a traumas e frustrações..... que geram neuroses.... psicoses.... violência, desesperança, desespêro..... e morte.

 

A cura da desarmonia entre cérebro e genitais, que causa o transexualismo, é a parte mais fácil na questão do transexualismo. Bastaria termos um sistema de saúde criativo, abrangente e honesto.... bons avaliadores, treinados para isso..... bons cirurgiões, treinados e preparados para isso..... bons hospitais e planos de saúde, preparados para isso.

O difícil é viver e existir como transexual, numa sociedade quase medieval como a nossa.... sempre injusta, quase sempre corrupta, onde as autoridades só pensam em si, e jamais na população brasileira..... autoridades que a seus próprios olhos devem ter "prerrogativas", mesmo que na realidade sejam os mais execráveis privilégios. Conselhos corporativos que jamais pensam em seus pacientes, e  só pensam em seus interesses e privilégios.

Mas o que parece impossível, é fazer com que as pessoas aprendam a pensar, principalmente nossas autoridades. Que infelizmente, quando sabem pensar, pensam apenas em si mesmos, mostrando com isso toda sua mediocridade e incompetência no próprio pensar.....