Ser Homem ou ser Mulher: a Identidade Neuro-Psíquica como Referencial

por Wal Torres# & Pedro Jurberg *

# Wal era ainda mestranda em sexologia pela UGF-Rio, Brasil
* Pedro Jurberg,PhD, é um neurobiólogo, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, Rio, Brasil.



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Publicado neste site com autorização da UGF

Resumo
Neste trabalho procuramos fazer uma análise crítica do paradigma de gênero hoje adotado na sociedade, e propomos um novo paradigma.Ser homem ou ser mulher não depende apenas de cromossomos, gônadas, produção endógena de hormônios sexuais e da conformação genital externa. O paradigma atual, baseado no conceito de que homens têm pênis e mulheres vaginas, e no "sexo de criação", ignora a gênero neuro diferenciação do feto humano e seu papel na formação da psiquê. Existem, nos humanos, núcleos neurais gênero diferenciados. Esses núcleos promovem reações autônomas a estímulos, que terminam por estampar na memória emocional do indivíduo vivências gênero diferenciadas. Cremos que tal diferenciação neural tem essa tradução psíquica, consolidada por essa dinâmica, que leva à formação da identidade neuro-psíquica de gênero --- a qual não está necessariamente em harmonia com a conformação genital e/ou a criação. O paradigma atual não leva em conta essa evidência, nem as estruturas sexuais dimórficas neurobiológicas, prendendo-se a velhos conceitos do século XIX. O tipo de criação e as identificações sociais interferem apenas à partir do momento em que a criança começa a tomar consciência de sua própria condição, inibindo ou reforçando sua crença de ser menino ou menina. Propomos a adoção de um novo paradigma que leve em conta essa diferenciação neuro-psíquica como melhor referencial na classificação de gênero. Também propomos uma nova compreensão da identidade de gênero e da autonomia individual de gênero, inclusive com a criação de um novo sistema de registro civil.


Palavras Chave: Paradigmas de Gênero/ Identidade de Gênero/ Neuro-diferenciação de gênero/ Dinâmica da tradução do neural em psíquico/ Disforias de gênero.


Being a Man or a Woman: Neuro-psychic Gender Identity as a Determining Factor in Gender Differentiation.
Abstract:


This paper tries to make a critical analysis of modern society's gender paradigm, as well as to propose a new one.Being a man or a woman is not a mere consequence of the individual's chromosomes, gonads, hormones and external genital conformation. The actual paradigm, based on the concept that men have penis and women have vaginas, and on sex of rearing, ignores the neural gender differentiation of the human fetus and its role on the building of the psyche. Humans have gender differentiated neural nuclei. These nuclei prompt autonomous responses to stimuli, which will eventually promote an emotional priming according to the gender differentiated neural experiences stored in the memory. We believe such neural differentiation has a psychic translation, consolidated by this dynamics, that leads to the building of one's neuro-psychic gender identity --- which is not necessarily in harmony with one's sex of rearing and/or genital conformation. Thus, gender dysphorias --- diverging genders in psyche and genitalia --- may occur. The present paradigm takes neither this evidence nor the neurobiological sexual dimorphic structures into consideration, clinging to old concepts of the XIX century. Rearing and social identifications only start interfering at the moment the child realizes its own condition, inhibiting or reinforcing its belief of being a boy or a girl. We propose the adoption of a new paradigm, one which takes this neuro-psychic differentiation into account as the best determining factor in gender classification.We also propose a new understanding of gender identity and gender autonomy, including the creation of a new system of civil registration.

Key Words: Gender paradigms/ gender identity/ neuro-differentiation of gender/ neuro-psychic dynamics and translation/ gender dysphorias

Introdução

O assunto é extremamente polêmico e contraditório. Sobre ele têm havido verdadeiras batalhas ideológicas no mundo da sexologia nos últimos 30 ou 40 anos (por um lado uma posição construtivista social: Money,Hampson,Hampson 1955; Money & Ehrhardt 1972; Money & Tucker 1975; Money 1994; Zucker 1996; Bradley & Zucker 1997; e por outro, a essencialista neuro-psíquica: Imperato McGinley 1979; Zhou et al 1995; Diamond 1996; Reiner 1997; Diamond & Sigmundson 1997; Freitas 1998; Wilson 1999; Kruijver et al 2000; como cronistas e comentaristas: DeLamater & Hyde 1998; Fausto-Sterling 2000; Colapinto 2000).

O assunto toca o ser humano em sua realidade mais íntima: a formação da identidade humana e seu gênero, o ponto de partida da vivência subjetiva da sexualidade e objetiva do comportamento sexual. Se a matéria fosse outra, não relacionada a sexo e sexualidade, talvez já estaria esclarecido e certamente o assunto afetaria menos o estado emocional dos debatedores.

Por outro lado, como toda luta ideológica, ela faz vítimas, geralmente inocentes. As vítimas são pelo menos de 14 a 15 milhões de portadores de alguma síndrome, quer de disforia de gênero, quer de androginia.

A Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association- HBIGDA considera que só de transexuais existem aproximadamente 4 milhões de disfóricos no mundo --- dados obtidos a partir de índices oriundos de levantamentos feitos na Holanda e em Singapura --- vide Cohen-Kettenis & Gooren 1999. De pessoas com intersexo estima-se que existam 102 milhões de pessoas no mundo --- estimativa conservadora que admite 1,7% da população mundial como intersexual --- outras estimativas admitem de 120 (2%) a 240 (4%) milhões --- vide Fausto-Sterling 2000. Destes, podemos admitir que 10% sejam ou tenham sido tornados disfóricos por cirurgias precipitadas de designação de gênero e "sex of rearing" (consideração também de Fausto-Sterling 2000), o que daria um total de 14,2 milhões de disfóricos no mundo ( estimativa obtida a partir de Fausto- Sterling 2000).

No presente trabalho analisamos os paradigmas de formação de gênero, e propomos um novo, de acordo com descobertas recentes. Estes paradigmas serão analizados com base numa visão epistemológica, ética e ideológica, considerando-se os dados científicos e clínicos hoje em dia disponíveis.

Uma questão epistemológica, ética, científica e ideológica

Como podemos definir o melhor modelo para os dias de hoje?

Precisamos considerar simultaneamente pelo menos 4 critérios, todos igualmente importantes: o critério epistemológico, porque um modelo visa explicar e, no caso, categorizar a realidade; o modelo também procura simulá-la baseando-se numa teoria ou em algumas teorias ou pontos de princípio; em segundo lugar o critério ético, fundamental neste caso pois o gênero categoriza a identidade, classifica a pessoa, visa discriminar em categorias o íntimo das pessoas. Quais os direitos que tem a pessoa sobre a sua classificação? Podem terceiros classificar uma pessoa à revelia de sua vontade? Pode a pessoa não ser autônoma na definição de sua identidade, não sendo agente do reconhecimento pessoal, mas paciente, sem sua reificação? Um terceiro critério que precisa ser considerado é o científico. Resultados científicos modernos indicam que um dos modelos é falso? Quando, como e por quê? Os pontos de princípio subjacentes ao modelo se mostram equivocados, a partir de novos resultados científicos modernos? Tratando-se de seres humanos, quando não podemos, por motivos éticos, realizar uma série de testes de laboratório, quais são os resultados clínicos? Esses resultados clínicos, quando manipulados e divulgados, têm o aval expresso das vítimas, efetivamente expressam os pontos de referência das vítimas ou expressam os pontos de vista e pontos de princípio dos pesquisadores? Nesse caso, essa manipulação de resultados perde todo valor científico! E os resultados clínicos humanos são coerentes com os resultados de laboratório em primatas não humanos? Uma incoerência nesse sentido pode evidenciar uma manipulação ideológica subjacente de resultados clínicos, quando os pacientes não expressam efetivamente seus sentimentos sobre sua identidade, se não se tomar as cautelas éticas necessárias --- o que hoje em dia ainda não é a prática comum nas pesquisas e em sua divulgação. Um quarto e último critério que temos que levar em consideração, é o ideológico; todos nós temos uma visão de mundo, de sociedade, de valores....mas esta visão está mascarando o modelo, tornando-o muito reducionista, anti-ético por desconsiderar a autonomia do paciente, nos levando a negarmos resultados científicos por não condizerem com nossa visão de mundo e de sociedade, entrando em choque com nossos valores?

Um modelo de gênero visa explicar acontecimentos, classificar pessoas, justificar atitudes, promover leis, códigos, preceitos, construir inclusive o imaginário social sobre o assunto, criando e destruindo preconceitos, incluindo ou excluindo pessoas, permanecendo coerente com sua simulação da realidade. Como todo modelo embasado em ciência, ele pode vir a ser falseado pelos casos que exclui ou não consegue explicar, e assim se mostrar envelhecido, devendo ser substituído por um outro mais novo que necessariamente deve abranger as explicações e a simulação dos casos considerados pelo que foi falseado, e acrescentar outros que explique, simule e justifique, quando o outro ignorava, rotulava ou excluía. Para ter valor científico todo paradigma tem que ser falseável, ou seja, só terá valor se pudermos verificar que ele poderá vir a se mostrar falso com base em resultados experimentais ou clínicos, caso contrário o modelo não terá valor científico mas apenas ideológico --- esse conceito de uma teoria para ser científica ter que poder experimentalmente vir a se mostrar falsa, é de Popper --- para maiores detalhes vide Popper 1979. Alguns cuidados especiais devem ser tomados neste assunto tão polêmico:

I.Cuidados epistemológicos:

Até onde podemos reduzir um fenômeno para categorizá-lo e conhecê-lo ? Teoricamente devemos reduzí-lo o mínimo possível para que o conheçamos da maneira mais ampla. Mas alguma redução sempre é inevitável, porque para o ser humano, conhecer é reduzir. Mas sempre temos que ter consciência das reduções que fazemos nos nossos modelos, para conhecer. O grande problema nas nossas reduções não está na redução em si que é necessária sempre, mas na absolutização da redução, identificando-a com a verdade. Jamais podemos identificar o modelo, que sempre reduz a realidade ao cognoscível não passando de uma simulação da realidade, à própria realidade em si. Esse é o tipo de equívoco epistemológico que, ao longo da história, continuamente cometemos.

II. Cuidados éticos:

não se deve ignorar a pessoa humana como closura neuro-psíquica na aplicação de nenhum modelo em que esteja envolvido seu direito a se auto-referenciar --- me baseio na ética personalista. O ser humano deve ser compreendido como um organismo em contato perpétuo com um ambiente, que se auto-referencia nesse ambiente, de forma autônoma, como pessoa. Como agente de sua realidade e de sua identidade e, jamais, como paciente. Não podemos ignorar a compreensão das pessoas sobre si mesmas, sobre quem são, como se vêm, como se compreendem e como se sentem. Senão não serão pessoas, mas coisas. Não podemos classificar o outro como coisa, reificando-o; e ao mesmo tempo devemos respeitar sua auto-classificação como pessoa. O respeito pelo como o outro se auto-reconhece e como quer ser reconhecido são imprescindíveis em qualquer modelo teórico referente à identidade da pessoa humana, e com relação a qualquer atributo de sua identidade. Não é ético definir exogenamente modelos, sejam eles quais forem, e depois considerar herege, pecador, anormal ou psicopata quem não se adapta às nossas teorias ou pontos de princípio, simplesmente pela sua inadaptação à nossa maneira de simular a realidade. Na realidade nós mesmos, querendo absolutizar nosso modelo teórico identificando-o de maneira absoluta com a realidade, estamos evidenciando nossos desvios por não nos apercebermos bem da realidade. Devemos ter a consciência e o equilíbrio para percebermos que o desvio da realidade nesse caso está em nós e em nossa forma perversa de absolutizar o nosso modelo, e não no outro, no desadaptado. Um outro aspecto ético muito importante que precisa ser especialmente avaliado neste caso, é o critério de publicidade dos resultados clínicos: eles efetivamente expressam o ponto de vista da vítima, o que a vítima sente e se reconhece livremente, ou o que o pesquisador "sugere" (na realidade impõe --- geralmente a crianças, jovens ou pessoas naturalmente fragilizadas) como referencial teórico para a vítima, que não tendo condição muitas vezes de questionar, aceita a autoridade do terapeuta (um exemplo trágico mas típico de vício de publicidade foi o caso David Reimer --- que posteriormente será apresentado em detalhes ---vide Colapinto 2000). Estarão hoje em dia as Comissões de Ética preparadas para evitar radicalmente a manipulação dessas situações, garantindo efetivamente o direito do paciente, mesmo criança, jovem ou fragilizado social, de ser ouvido sobre sua realidade mais íntima que diz respeito à sua identidade, sem a intermediação possivelmente tendenciosa do pesquisador ou terapeuta ?

III. Cuidado científico :

não se pode ignorar resultados científicos neuro-biológicos e em endocrinologia molecular ligados às diferenciações de gênero em seres humanos, e mesmo em primatas não humanos quando não podemos, por motivos éticos, experimentar em humanos; principalmente quando obtidos em laboratórios de primeira linha, mormente quando se mostram coerentes com outras descobertas, e reprodutíveis. Também não se deve ignorar resultados clínicos de métodos adotados no passado e no presente, sejam eles positivos ou negativos com relação aos nossos pontos de vista, tenham eles resultados confirmadores ou não de nossos modelos.

IV. IV. Cuidados ideológicos:

sempre convivemos com uma visão cultural e social de mundo e de sociedade. Ela se reflete nos valores e manipulações --- jurídicos, políticos e de marketing --- instituídos por nós. Mesmo que, ideologicamente, exista o amadurecimento para um avanço dialético da história, nem sempre se terá no mesmo momento o amadurecimento político, e muito menos o jurídico. E pode-se manipular ideologicamente todo esforço de marketing, quer político, cultural, científico e social.

Os Três Paradigmas

Degladiam nessa arena ideológica três correntes principais de pensamento:

A primeira, mais tradicional, atualmente adotada pela maioria dos países e por suas legislações, preserva a conformação genital como base de classificação de gênero e considera freudianamente a psiquê humana como gênero indiferenciada no nascimento e o reconhecimento dos genitais como fonte fundamental de auto-identificação (vide Freud 1905; Money & Ehrhardt 1972; Money & Tucker 1975). Ignora os processos neurais intra-uterinos e considera a influência e construção social a base da formação do gênero da identidade como um processo psico-social construído na primeira infância --- o "sex of rearing" de Money (vide Money & Ehrhardt 1972). Quem não se adaptar a esse paradigma automaticamente é visto pela academia (a partir da APA- American Psychiatric Association) como portador de uma patologia psíquica --- daí o conceito de GID- gender identity disorder (vide Mormont, Michel, Wauthy 1995).

Esse paradigma atual chamaremos de modêlo atual heterônomo.

Esse modelo heterônomo tradicional é profundamente reducionista e cai no equívoco de absolutizar sua redução da realidade identificando-a com a própria realidade. Reduz classificando e absolutiza como verdade sua classificação. E depois julga os que não se adaptam a ele, como se não se adaptassem à própria realidade (vide Mormont,Michel,Wauthy 1995).

É anti-ético porque a pessoa (ainda como bebê) é classificada por outros à partir de critérios e categorizações determinados por outros, de forma autoritária. A pessoa não é agente mas paciente na definição de sua realidade e identidade. Posteriormente se ela não se adaptar a esses critérios, seja pelo motivo que for, ela que foi paciente e não agente de sua identificação e categorização passa a ser responsabilizada por sua inadaptação ao modelo. O modelo se torna a realidade absoluta. Essa absolutização de um modelo teórico, seja ele qual for, demonstra uma fuga da apercepção da própria realidade pelo detentor do modelo e não pelos que não se adaptam a ele. O detentor do modelo é principalmente a academia. É importante notar que mesmo que o modelo atual parecesse perfeito, sem no momento apresentar qualquer indício de falsidade, mesmo assim ninguém eticamente teria o direito de identificá-lo com a realidade, discriminando quem a ele não se adaptasse.

É a- científico porque o modelo desconsidera inúmeras evidências neuro- biológicas em seres humanos e resultados clínicos --- mostrando evidentemente enormes debilidades e possibilidades de se mostrar falso em inúmeras situações --- a mais evidente sendo o caso da manipulação ideológica dos resultados obtidos com o tratamento de David Reimer, o gêmeo transgenitalizado de Money em 1967, que se dizia certamente aprenderia a ser menina --- e por isso a família aceitou a transgenitalização do bebê de 8 meses --- vide Money, Hampson, Hampson 1955. Posteriormente se publicou, propagou e propagandeou exaustivamente que o menino havia efetiva e inequivocamente aprendido a ser menina, confirmando o simulado pelo modelo teórico (vide Money & Ehrhardt 1972; Money & Tucker 1975) --- e essa informação científica se tornou um marco no sucesso desse modelo e passou a nortear a conduta médica, cirúrgica e psico-terapêutica a partir de então, até o final do século XX e início do XXI --- mas hoje o próprio personagem que se viu vítima desse modelo vem a público desmentir tudo o que foi publicado sobre ele, e mostrar que jamais aprendeu a ser menina (Diamond & Sigmundson 1997; Fausto-Sterling 2000; Colapinto 2000).

Outros resultados confirmam a inadequação dessa terapia e dos pontos de princípio sobre os quais ela está alicerçada (Zhou et al 1995; Reiner 1996; Reiner 1997; Freitas 1998; Wilson 1999; Kruijver et al 2000; Fausto-Sterling 2000; Nussbaum 2000; Colapinto 2000). Classificar os portadores de disforias como portadores obrigatórios de psicopatias (GID), que é uma consequência do modelo teórico e não da realidade também tem se evidenciado ser clinicamente um equívoco (vide Cohen et al 1997).

A manipulação da publicidade dos resultados no caso David Reimer (o gêmeo de Money) infelizmente não é um caso isolado nesse universo de "sex of rearing". Após a sua veiculação, milhares de outros casos de manipulação da informação de resultados clínicos de identidade de gênero têm aparecido na mídia (vide Fausto-Sterling 2000; Colapinto 2000). Em cada artigo científico em que terapeutas afirmam categoricamente que a criança ou jovem estava "adaptado" ou não a uma identidade de gênero, temos que levar em consideração "sempre" a possível manipulação ideológica da publicidade nesses casos, mesmo que inconsciente ou por desatenção do pesquisador, desde que a própria vítima não se manifeste publicamente--- as comissões de ética precisam ser alertadas sobre esse assunto--- sobre sua identidade. E mesmo quando se manifestam, podem ser manipuladas facilmente, como foi David Reimer, quando ainda era conhecido como "Brenda", que foi entrevistado na televisão quando criança, parecendo dar suporte a Money. Hoje, David diz que estava em pânico, e que dizia o que queriam que dissesse. As vítimas nunca se manifestam porque nunca são levadas em consideração pelo referencial teórico vigente, tanto que esse foi o tema mais importante levado a público por Cheryl Chase- fundadora e coordenadora da Intersex Society of North America-ISNA, ela mesma vítima desse modelo teórico, no encontro da Lawson Wilkins Pediatric Endocrine Society -LWPES, em maio de 2000, em Boston, quando Chase discursou para uma platéia de médicos sobressaltados sobre seu tema: Sexual Ambiguity- the patient centered approach (Ambiguidade sexual: o ponto de vista do paciente) --- vide Fausto-Sterling 2000.

Mas esse modelo é ainda profundamente conveniente do ponto de vista ideológico. Mantém a posição da academia, típica de nossa cultura paternalista e autoritária ocidental. Respalda o "status quo" construtivista social dominante na psicologia e na antropologia, para não dizer em toda academia. Responsabiliza rotulando a pessoa inadequada---com "desordem de gênero" ou "psicopatia marginal": no caso geralmente a criança e o jovem---que na maioria das vezes não são ouvidos nos meios acadêmicos e científicos, nem sobre si mesmos--- que não são respeitados como pessoas em nossa sociedade autocrática e são discriminados quando não se adaptam ao modelo a eles imposto sendo responsabilizados por sua inadaptação. Por outro lado, quanto à sua autonomia, incoerentemente são considerados como legalmente irresponsáveis por si mesmos, inclusive quanto às condições básicas de sua própria identidade. Discrimina os "gays", as "sissi boys", as "mariquinhas", os "perversos" e "invertidos" como se considerava politicamente correto há pouco tempo atrás --- atitude homofóbica (na realidade "diferentesexualfóbica") que começa a ser proibida terminantemente pelo Conselho Federal de Psicologia -CFP, mas que ainda é adotada pelo ideário social alimentado por anos de vigência dessa forma de fobia ao diferente de gênero que foi institucionalizada através das normas DSM desde 1952 (vide Simmons 1981) --- normas que derivaram desse modelo teórico. Mas mesmo ideologicamente este modelo começa a se tornar inconveniente, desgastado e obsoleto.

Um segundo modelo, pós-moderno e hoje influente na área filosófica, é o que radicalmente considera o gênero um "continuum" e o determinismo da categorização da bipolaridade macho/ fêmea um construto reducionista da medicina, da psicologia e da sociologia. Se extingue o conceito de gênero e preserva-se apenas o conceito de identidade. Mostra-se que as grandes definições nas questões de gênero, como intersexo e transexo não passam de questões semânticas (vide Fausto-Sterling 2000) ---- um modelo autônomo, absoluto em sua autonomia e relativizante quanto à bipolaridade macho/ fêmea tradicional (um exemplo dessa forma de pensamento se encontra em Wilchins1997; e ele é alinhavado por Fausto-Sterling 2000 como possível modelo de gênero ideal). O modelo autônomo absoluto é profundamente não-reducionista e ético --- considera de forma absoluta a pessoa humana como agente de sua realidade e identidade; e cientificamente também se mostra profundamente interessante --- não contradiz nenhum resultado científico, pelo contrário, é o que mais considera os resultados científicos hoje conhecidos, de forma ampla e irrestrita, em todas as áreas da ciência, e em todos os resultados clínicos. Mas mesmo ético, humanista e abrangente é a-científico dentro do conceito de Popper 1979, porque não pode ser contradito cientificamente por abarcar tudo --- ele é tão radical na aceitação da autonomia do indivíduo, que não pode ser científica e experimentalmente considerado inverídico --- o que o invalida cientificamente. Por ser humanista demais, ele acaba por ser a-científico porque não falsificável.

Por outro lado, do ponto de vista ideológico ele é difícil de ser implementado política e juridicamente. A sociedade estará preparada para um salto tão grande no reconhecimento do gênero, a ponto de respeitar a pessoa humana em sua identidade de forma tão completa que aceite a abolição da obrigatoriedade da dicotomia macho/ fêmea ? A consequente abolição dos conceitos de hetero, homo e bissexualidade nas inter-relações humanas? Uma reconceituação radical de matrimônio, família, sexualidade? Tudo isso sem uma base científica sustentável, mas como consequência apenas de uma posição humanista? A própria Fausto-Sterling duvida que esse modelo logo possa vir a ser considerado, do ponto de vista legal, mesmo que hoje já o seja no filosófico, mesmo nas sociedades ocidentais consideradas "de primeiro mundo".

Um terceiro modelo, intermediário entre esses dois extremos, procura levar em consideração os genitais e a dicotomia macho/ fêmea, mas sem se limitar apenas a eles. Com base em resultados obtidos nas últimas décadas na neurobiologia, na neuro-psicologia e na endocrinologia molecular, sem dúvida de forma neo-determinista também em si reducionista, o gênero passa a ser definido pela vivência íntima da pessoa pelo seu auto-referenciamento como closura neuro-psíquica. As neuro-diferenciações cerebrais intra-uterinas organizadas pela ação (ou inação) de androgênios passam a ter uma importância fundamental. Sua dinâmica formadora do gênero da identidade e sua independência dos genitais passa a ser esclarecedora de muitos casos de disforias --- mesmo que não esgote o assunto. Corresponde a um modelo de transição entre a forma autoritária extremamente reducionista do primeiro e a liberalização ainda utópica absoluta do segundo --- um modelo autônomo, essencialista e bipolar (antes deste artigo este modelo ainda não havia sido formalmente apresentado na literatura, mas apenas alinhavado em Diamond 1996 e em Freitas 1998).

Apresenta a maioria das vantagens do segundo, sem apresentar tantos inconvenientes. Talvez seja o modelo possível, o modelo da transição necessária, a redução possível, mas mesmo assim já constituindo um grande avanço com relação ao modelo heterônomo atual.

Eticamente prioriza a autonomia da pessoa, mas restringindo-a à bipolaridade da categorização um tanto artificial de macho/fêmea --- atitude restritiva reducionista e teoricamente incorreta, mas que tendo bem compreendidas suas limitações passa a ser aceitável, desde que explícita e claramente respeite a identidade da minoria que não se adequa a essa categorização e não a exclua de forma alguma. Um reducionismo do possível para o momento e o futuro próximo, aceitável desde que não ignore suas limitações, e não se auto-absolutize.

Cientificamente está de acordo com todos os dados conhecidos --- mesmo que não se aplique a extremos conhecidos de resultados clínicos. Por exemplo existem pelo menos 100.000 pessoas no mundo hoje em dia (vide Fausto-Sterling 2000), que consciente e amadurecidamente dizem ser andróginas, sem uma identidade de gênero definida como crença profunda de ser homem ou mulher --- na quase totalidade, casos de hermafroditismo e mosaicismos --- mas que se sentem felizes como andróginas, desde que sejam socialmente respeitadas como e pelo que são (vide Fausto-Sterling 2000; Colapinto 2000). Esse terceiro modelo tem a limitação de não considerar esses casos em seu aparato teórico, mas pode ter a abrangência de não ignorá-los e de não querer enquadrá-los na prática médica e jurídica preconizada pelo modelo para os outros casos em que a categorização bipolar se aplica. Em compensação, abarca 14,2 milhões de outros, os disfóricos de gênero, hoje em dia marginalizados pelo paradigma atual. É importante salientar que esse modelo é falseável --- bastará se encontrar provas científicas de que o cérebro humano não é diferenciado, por exemplo, ou que essa diferenciação nada tenha a ver com a identidade de gênero, ou que seja cientificamente impossível a discordância entre o gênero genital e o neural, para falseá-lo --- portanto plenamente científico, além de ético e humanista. Por outro lado , é naturalmente centrado, como ponto de princípio com base no próprio referencial teórico, no paciente, na autonomia da pessoa como agente de sua própria identidade, levando em consideração as necessidades de disfóricos e andróginos, como preconizado por Chase (em Fausto-Sterling 2000) e Freitas 1998.

Ideologicamente esse modelo é aplicável hoje em dia, evidentemente com muitas resistências radicadas há milênios na sociedade e há séculos na academia --- não se enquadrando na ontologia cartesiana, até hoje filosoficamente incorporada na academia --- e dificuldades legais e jurídicas intransigentes na maioria dos países, principalmente nos de mentalidade acadêmica, política e jurídica conservadora, autoritária, paternalista e colonial como a nossa; mas já vem sendo implementado, se não na teoria pelo menos na pratica, paulatinamente, na Holanda e na Bélgica (Cohen-Kettenis & Gooren 1999).

A Necessidade da Mudança

A fragilidade demonstrada do paradigma atual, em todos os sentidos, se revela claramente quando se analisa os casos de disforias de gênero --- prejudicando algumas dezenas de milhões de pessoas no mundo.

As principais situações em que podem ocorrer disforias de gênero, são:

A----- Casos que classificamos de intersexo tipo 1

--- com anomalias genitais aparentes no momento do nascimento, que depois, naturalmente ou por adequações cirúrgicas equivocadas e imposição de "sex of rearing", venham a se mostrar disfóricas:

. Síndrome de Imperato McGinley, onde ocorre uma radical falta de ação da dihidrotestosterona (DHT), o que impede a masculinização dos genitais externos, mas não ocorre obrigatoriamente falta de ação da testosterona (T). Esses meninos, ao nascerem, apresentam genitália ambígua, parecendo mais feminina que masculina. Tratados conforme o paradigma atual, foram criados e educados como meninas, em diferentes continentes e culturas, alguns passando por cirurgias de designação, outros não; a maioria deles após os 7 anos de idade mostram uma identidade e auto-referenciação masculina, e procuram uma redesignação física e social masculina, apesar das pressões sociais contra essa correção (vide Imperato McGinley et al,1979).

. Casos de síndromes parciais na recepção de androgênios (PAIS): Existem várias possibilidades, quando a atuação dos receptores de androgênios (AR) é hormônio-seletiva. Por exemplo podem haver casos em que a ação de DHT seja anormal, mas de T seja ou não normal. Nestes casos, podem acontecer disforias (vide Pinsky et al, 1984; Kaufman, Pinsky, Killinger, 1986; Pinsky & Kaufman,1987; Zhou et al, 1995B).

. Casos de hiperplasia adrenal congênita: mesmo a genitália ambígua sendo mais feminina, e designada como feminina, pode ocorrer a masculinização da auto-referenciação, a pessoa sentindo-se um homem (vide Quaglia,1980; Meyer-Bahlburg, Gruen, New, 1996; Reiner 1996).

B ----- Casos de intersexo tipo 2

em que as crianças nasceram sem problemas de ambiguidade genital externa perceptível, mas que um dia, por um acidente e transgenitalização à revelia da expressa vontade da criança, ou por nascer com genitais normais na forma mas não no tamanho passando pelo mesmo tipo de tratamento, ou mesmo nascendo com os genitais aparentemente totalmente normais, venham a apresentar uma disforia de gênero:

.Meninos normais que tiveram os pênis decepados em acidentes até os dois anos de idade, e foram designados como meninas; e meninos com micropênis, que são designados como meninas --- em ambos os casos as cirurgias de transgenitalização são efetuadas enquanto bebês, portanto sem a aprovação precípua deles mesmos. Por exemplo o caso dos gêmeos estudado desde 1967 pela Johns Hopkins (Money & Erhardt, 1972), quando foram efetuadas cirurgias de transgenitalização em um deles. O menino (John/ Joan, na realidade hoje David Reimer) foi criado como menina e apresentado como sucesso da terapia de "sex of rearing", como indutor eficiente do gênero da identidade (vide Money & Erhardt, 1972; Money & Tucker 1975). Mas agora, quando se fez o "follow up" do caso, se constatou que o menino criado como menina hoje em dia é David, foi transgenitalizado como transexual FM tendo passado por duas séries de inúmeras cirurgias de neofaloplastia e está casado com uma mulher, tendo três filhos adotivos, e feliz com sua condição atual por ser reconhecido como homem, apesar de ainda ter inúmeros problemas. Em sua biografia escrita em 2000 por John Colapinto, David mostra que se identificou como homem desde a infância, antes mesmo de saber de seu processo de transgenitalização cirúrgica, e diz ter sido torturado psiquicamente por anos pela terapia de "sex of rearing" (vide Colapinto 2000). Colapinto afirma que David, com 14 anos disse aos pais que se o levassem novamente até Money, ele se suicidaria --- à partir daí nunca mais viu Money. O paradigma atual não explica esses casos e ainda perversamente desqualifica e exclui socialmente as vítimas. Pelas revelações de David Reimer, sua aplicação ética e cientifica não mais se justifica em nenhum caso.

. Casos de transexualismo: pessoas algumas vezes cultas, mas evidentemente nem sempre; algumas doutores e mestres em vários ramos do conhecimento, outras vedetes e mesmo profissionais do sexo; que mesmo nascendo com os genitais com a conformação de um gênero, se auto-referenciam como sendo do outro gênero. Mesmo não apresentando problemas psicopatológicos --- conforme afirmam Cohen et al 1997 (e Masters & Johnson 1982 já reconheciam serem os disfóricos refratários à psicoterapia aplicada para induzí-los a se identificarem com seus genitais), o paradigma atual insiste em considerá-los como tendo que ser portadores de uma psicopatologia. No ideário social brasileiro e ocidental de uma maneira geral, essas pessoas são social e profissionalmente muito discriminadas, e a maioria delas termina trabalhando como profissional do sexo ou como profissional da indústria erótica, por exclusão social e consequente falta de oportunidade profissional --- o que é uma consequência do modelo teórico vigente, e um de seus aspectos mais perversos e anti-éticos. O Conselho Federal de Medicina- CFM em sua resolução 1482/97 reconhece que esses casos precisam ser tratados por cirurgias de transgenitalização --- esta é a prática preconizada pela HBIGDA, e adotada na maior parte do mundo ocidental --- vide Petersen & Dickey 1995. Explicar estes casos como uma psicopatologia, como uma GID, hoje em dia já se mostra não só ética mas mesmo clinicamente inconsistente.

Colocamos os "transexuais" como intersexuais tipo 2, dentro da mesma problemática dos outros casos de disforia em "intersexuais". Essa mesma atitude tomou a OMS-Organização Mundial de Saúde, no CID-10 (Código Internacional de Doenças), ao classificar todos os portadores de disforias no item F64, tenham uma má formação genital visível (F.64.8) ou não (F.64.0 e F.64.2). Como diz Fausto-Sterling 2000, essas designações não passam de questões semânticas.

O sentido da mudança proposta: o gênero neural

1.Existem diferenças neuro anatômicas entre cérebros humanos, masculinos e femininos. Em humanos foram descobertas diferenciações de gênero em núcleos na região pré-óptica do hipotálamo: o SDN (sexually dimorphic nucleus), descoberto por Swaab & Fliers 1995; e os Inah-2 e 3 (interstitial nuclei of the anterior hypothalamus-nº2/3) , descobertos por Allen et al, 1989, em que os núcleos masculinos são aproximadamente duas vezes maiores que os femininos. Posteriormente também foram descobertos núcleos na estria terminal (BNST- bed nucleus of the stria terminalis) gênero diferenciados (Zhou et al, 1995A; Kruijver et al, 2000). Esses núcleos são 50% maiores em estrias masculinas que em femininas. Os pesquisadores verificaram nos dois estudos:

a) Que as estrias de disfóricas MF (male to female--mulheres disfóricas), têm características femininas em todos os casos estudados;

b) que estrias de um disfórico FM (female to male--homem disfórico), tem estria masculina;

c) que as estrias de homens com orientação homossexual e outros com orientação heterossexual, são igualmente masculinas, não havendo diferenças;

d) que essa diferença neuro-anatômica é determinada no período de gestação, e não é mais alterável por ingestão de hormônios e outras possíveis modificações durante a vida após o nascimento.

2. As diferenças neuro-anatômicas se encontram em núcleos gênero-diferenciados no hipotálamo, estria terminal e corpos amigdalóides no sistema denominado por Newman,2000 como Social Behavior Network (SBN).

3. Resultados com humanos e experiências realizadas com macacos rhesus indicam que a ação de masculinização nos núcleos e sistemas do SBN se dá pela ação de T e não de DHT (vide Imperato McGinley et al 1979---com humanos; e Bonsall, Rees,Michael,1989 ; Resko, Connolly, Roselli, 1988--- com rhesus).

4. Em primatas (humanos inclusive) e em roedores, a ação diferenciadora da auto-referência de gênero dos organismos se dá diretamente através da ação de T pela mediação de AR, e não através de aromatização (processo pelo qual T se metaboliza em estradiol, que passa a ativar os receptores de estrogênios-ER), que afeta a agressividade e capacidade de ejaculação, mas não o gênero em si (resultados obtidos à partir de ratos transgênicos: vide Ogawa et al, 1997, 1998 a ,1998 b, 1999).

5. Em primatas rhesus, por mapeamento dos tecidos cerebrais por autoradiografia foi verificado que (vide Bonsall, Rees, Michael,1983; Bonsall, Rees,Michael, 1986; Michael, Bonsall, Rees ,1986; Michael, Bonsall, Rees,1987; Clark MacLusky, Goldman-Rakic, 1988; Bonsall, Rees, Michael, 1989; Michael, Bonsall, Rees,1989; Bonsall, Zumpe, Michael 1990):

a) A ação dos androgênios no cérebro se dá na maioria dos tecidos, mas principalmente no SBN--- fato confirmado pelos dados neuro-anatômicos em humanos;

b) Apenas no SBN ocorre intensivamente a metabolização de T em estradiol, por aromatização;

c) No SBN a ação de DHT é insignificante se comparada à ação de T (vide Resko, Connolly, Roselli, 1988; Bonsall & Michael,1989) --- fato confirmado por Imperato McGinley et al 1979; Wilson 1999 em humanos;

d) A ação de T, direta ou por aromatização, no SBN se dá no período pré-natal, praticamente não havendo mais ação após esse período (vide Clark, MacLusky, Goldman-Rakic,1988) --- fato coerente com os resultados de Zhou et al 1995; Kruijver et al 2000, obtido com humanos;

Esses resultados evidenciam:

1º- As diferenças neuro-anatômicas em cérebros masculinos e femininos em seres humanos mostram que o ser humano é gênero diferenciado em seu sistema neural por ocasião do nascimento. Esses resultados são obtidos com humanos e estão coerentes com os obtidos com outros primatas, mas independem deles.

2º Essas diferenças neuro-anatômicas em seres humanos, e a ação diferenciada de T e DHT descoberta em humanos (à partir de dados clínicos) e em macacos rhesus (por mapeamentos que eticamente não se pode fazer em humanos) mostram que o ser humano pode ter, por causas eminentemente orgânicas e intra-uterinas, o gênero do SBN em discordância com a conformação genital.

3º Os resultados neuro-anatômicos em seres humanos disfóricos e não disfóricos, independentemente de sua orientação sexual, indicam que existe uma relação bi-unívoca entre neuro-anatomia do SBN e identidade de gênero, no ser humano.

Essas conclusões estão bem embasadas em resultados com humanos, e são confirmadas pelos resultados com primatas não humanos, dentro de um contexto científico e filogenético. Além desses dados, outros tão modernos como estes em endocrinologia molecular evidenciam a existência de inúmeras mutações, em seres humanos, no gene receptor de androgênios- AR. Essas mutações, que já foram catalogadas às centenas (vide Gottlieb et al 1998), provocam reconhecidamente as síndromes de insensibilidade na recepção de androgênios-AIS, que pode ser parcial-PAIS e mínima- MAIS, com consequente ambiguidade genital ou não. A descoberta também da possibilidade da hormônio seletividade na ação de AR pode explicar a causa orgânica da disforia em humanos. Além disso, os resultados foram obtidos, todos, por renomadas equipes em renomados laboratórios, institutos de pesquisa e universidades, tanto na América do Norte (CIT- California Institute of Technology, University of Texas, North Carolina University, McGill University- Montreal, Oregon Regional Primate Research Center, Department of Psychiatry- Emory University School of Medicine-Atlanta e The Rockfeller University-New York) como na Europa (Department of Human Anatomy-Oxford University- England; Netherlands Institute for Brain Research e Department of Endocrinology- Free University-Amsterdam), e todos eles têm se mostrado reprodutíveis, não havendo portanto qualquer base científica ou epistemológica para refutá-los como inválidos (até o final de 1997, conforme o banco de dados, já haviam sido catalogadas 309 mutações AIS).

A Tradução Psíquica do Gênero Neural

Se Descartes tivesse razão em sua ontologia, então um sistema não teria nada a ver com o outro. Mesmo que descobríssemos todos núcleos neurais diferenciados em seus mínimos detalhes ultra-estruturais (vide Raisman & Field, 1973) em cérebros masculinos e femininos, humanos ou não, nada disso teria algum valor para a psicologia, porque o neural e a psiquê seriam radicalmente independentes. Mas, em 1890, Willian James já antevia, e em 1994 Antônio Damásio mostrava com resultados experimentais, que Descartes não tem razão (vide Damásio 1994).

Indiscutivelmente existe uma inter-relação íntima do neural com o psíquico. Nós precisamos descobrir a relação existente entre esses sistemas porque só descobrindo essa tradução poderemos descobrir como funcionamos em nossa auto-referenciação (vide Cariani, 2000) e como influencia em nós nossa diferenciação neural de gênero --- essa relação bi-unívoca entre gênero da identidade e neuro-anatomia do SBN, descoberta nos anos 80 e 90 em seres humanos.

Questionava-se essa possibilidade, com base no "sucesso indiscutível" do construtivismo social na construção da identidade de gênero alardeado por Money. Mas hoje, vindo à tona a verdade sobre David Reimer e a impropriedade das assertivas de Money, fica ainda mais evidente a possibilidade que aventamos, e a necessidade da tradução que propomos.

O neural pode ser considerado a estrutura do psíquico, como o psíquico a linguagem do neural --- vide Heimer et al, 1991; Damásio,1994; 1998.

Temos que compreender que essa tradução não é uma redução simplificadora da realidade, mas a realidade ôntica mais profunda da vivência psíquica.

Mesmo Eccles, cientista católico, conferencista da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano e prêmio Nobel de medicina, considera que o neural e o psíquico são onticamente inter-relacionados obrigatoriamente, tendo inclusive aventado um modelo "quântico" para essa tradução (vide Eccles 1989). Mas é evidente que essa tradução é extremamente complexa mesmo nos outros animais, quanto mais no homem, em que é hiper-complexa. Mas que onticamente está sempre interligada com o sistema neural, sendo inalienável dele, não há dúvida, e que essa compreensão nada tem a ver com uma visão reducionista do problema, também não.

Com base nisso se alicerça o nosso conceito atual de morte. A morte cerebral, mesmo que não visceral, autoriza a remoção e os transplantes de órgãos --- porque subjacente a essa morte cerebral, neural, talâmica e hipotalâmica, que hoje a medicina e a academia consideram como efetiva, sabemos ser inegável a morte psíquica que a traduz, a morte do eu, do si mesmo. Neural, e portanto psiquicamente, aquele ser, aquele eu está morto, mesmo que se mantenham os órgãos vivos. Senão, em cada transplante e remoção de órgãos, teríamos que admitir que estaríamos cometendo um assassinato.

Para tentar avaliar essa relação certamente teremos que definir modelos de simulação muito mais simples que a realidade --- aí sim, teremos que reduzir para compreender --- no modelar e simular a tradução, mas não na ontologia da tradução. O nosso receio do "reducionismo", como já foi dito e explicado, não advém da nossa intrínseca necessidade de reduzirmos a um modelo teórico para podermos compreender e simular, mas do nosso vício ideológico de querermos absolutizar nossos modelos, confundindo-os com a realidade.

James,1890 já tentava modelar e recentemente Damásio,1994 consegue estabelecer modelos de tradução e mostra como se formam os sentimentos, as emoções e as racionalizações, à partir de modelos relativamente simples. O mesmo tipo de reações se dão na formação dos desejos, e outras reações a estímulos. Heimer et al, 1991 chega a propor uma abertura ideológica ampla para abrir caminho entre neurologia e psiquiatria, e mostra como pequenas diferenças neurais podem acarretar grandes diferenças psíquicas.

A identidade de gênero como crença profunda

Nosso ser é nossa crença mais profunda. Sabemos que existimos, que somos alguém. Podemos dizer que nossa auto-referência se molda desde o início de nossa existência, desde o útero, num meio ambiente intra uterino em que, com a mãe, formamos um universo particular, e depois com a imersão num novo universo, esse processo tem continuidade e amadurece, vindo um dia a se tornar consciente. Nesse universo intra-uterino se organizam os sistemas neurais gênero-diferenciados que podem ser afetados pelo meio ambiente intra-uterino condicionado pelo estado emocional, imunológico e hormonal das mães.

Todos nós concordamos que a primeira infância produz marcas profundas em nosso ser. Muito mais profundas ainda terão que ser as experiências traumáticas vividas nesse universo do útero. Porque essa vivência é a base de tudo e a mais fundamental. Ela faz parte de nossa primeira "construção", e não é puramente genética e determinista: dela participa decisivamente o meio ambiente intra-uterino como contingência.

O ser humano, para ser construído, precisa da proteção de um universo particular--- um útero--- tão sensível ele é para qualquer problema na construção. O útero e a placenta funcionam como filtros que protegem o feto de interferências externas. Mas ele estará sempre nesse meio ambiente que o protege na maioria das vezes, mas dependendo do estado emocional e de saúde da mãe, poderá se reverter essa proteção. Ele pode somatizar uma não masculinização neural se a mãe tiver um estado de stress muito forte e continuado, por produzir pouca testosterona nas células de Leydig, por interferências do sistema imunológico da mãe, por exemplo. O mesmo pode acontecer, se ela tiver um estado infeccioso (vide Ward & Weisz 1980; 1984; Anderson, Rhees, Kinghorn 1985; Anderson et al, 1986; Götz et al, 1993). Portanto, o feto humano, mesmo superprotegido, corre riscos que perpetuarão suas consequências principalmente no neural e no psíquico (vide Miller et al, 1999; Andersen et al, 1999).

Vivenciar essas realidades constrói o "hardware" que vai condicionar a conformação de nossa identidade como "software"; e dela também participará nossa inter-relação com as pessoas mais próximas de nós, neste "outro universo" para o qual um dia nascemos. Saímos do universo da construção do hardware, e entramos no universo da construção do software De uma maneira geral esse segundo universo tendo uma ação positiva ou reforçadora de nossa natureza, ou tendo ação negativa em antítese com nossa natureza pré-construída e limitante (vide Eccles 1989; Damásio 1994).

Neste trabalho não apresentaremos os detalhes do modelo de simulação da dinâmica da identidade de gênero, que será apresentado em outro trabalho específico sobre o assunto.

Cada ser humano adulto sabe ser homem ou mulher, como uma crença profunda (salvo casos muito especiais, que não podem ser ignorados, em que ocorre uma identidade andrógina--- vide Fausto-Sterling 2000; Colapinto 2000). Como a diferenciação do SBN participa na formação dessa crença? Procuraremos analisar a dinâmica do que ocorre numa criança disfórica de gênero do tipo 2 --- no caso uma menina (pois terá identidade feminina) com genitais masculinos --- quando se poderá evidenciar melhor os fatores que interferem nessa dinâmica. No caso de crianças normais, como ocorrem sempre reforços positivos, não se percebe com clareza a dinâmica do processo de formação do gênero da identidade. Mas essa modelação dinâmica será apresentada em outro artigo, por ser extensa e complexa.

A construção uterina de nossa estrutura neural condiciona todo o vir a se formar de nosso eu psíquico. Não poderia haver software sem hardware, e de forma alguma o software poderia independer do hardware. Também não faria sentido evolutivo, num assunto tão fundamental como o gênero (vide Damásio 1994), o hardware ser diferenciado, sem diferenciar o software.

Um Novo Paradigma

Qualquer paradigma é adequado conquanto explique todos os casos que se propõe explicar, e seja ético. Neste sentido o paradigma atual de gênero tornou-se inadequado mesmo explicando a maior parte dos casos, mostrando-se desgastado quando aplicado a uma série de situações de disforia e androginia (entre 14 e 15 milhões de pessoas no mundo conforme critérios já apresentados anteriormente) e equivocado ao desconsiderar a diferenciação neural de gênero e suas inevitáveis consequências na psiquê, e por ser a-ético, desconsiderando a autonomia da pessoa humana, em todas as situações.

O próprio Freud, cujos pontos de princípio embasaram o modelo atual, sempre admitiu, demonstrando sua coerência e grandeza de espírito que, com o crescimento do conhecimento sobre as diferenciações sexuais, suas idéias poderiam ter que ser revistas (vide Freud, 1920). O paradigma freudiano precisa ser revisto, como ele mesmo previu. Money 1994, muito pressionado, finalmente flexibilizou seus pontos de princípio freudianos em sua base e construtivistas sociais em sua dinâmica até então inflexíveis, o que já era um sinal de que ele mesmo notava que suas idéias começavam a se mostrar equivocadas e insustentáveis, e Diamond 1996 faz um excelente e abrangente comentário sobre esse fato e suas consequências --- vide também Reiner 1997; Freitas 1998; Wilson 1999; Fausto-Sterling 2000; Colapinto 2000.

Uma quantidade significativa de pessoas se sentem desadaptadas numa das coisas mais fundamentais que é o seu reconhecimento como homem ou mulher e que, por isso, são marginalizadas pelo paradigma atual, que as considera psicóticas (portadoras de GID's- CID-10, F.64.0) simplesmente por manterem suas crenças sobre si mesmas, apesar do modelo teórico vigente. Só este fato já julgamos ser importante para que procuremos um paradigma que contemple de forma mais abrangente a vida humana.

O gênero do ser humano é um grande desconhecido fora da auto-referência do indivíduo. Portanto o enquadramento jurídico do gênero não deve poder estar em discordância com a auto-referenciação de cada (e de todo) ser humano, em nenhum caso, sem exceções. Um único registro no momento do nascimento, realizado por terceiros à revelia da pessoa como coisa definitiva e reificante certamente não é o sistema mais adequado. Propomos um sistema de registro em dois estágios: um provisório com base nos genitais ao nascer, e um posterior, com base na auto-referência do indivíduo, após seus 10 a 14 anos --- o sistema que hoje mais se aproxima de nossa proposta é o vigente na Holanda, onde se estabelece um segundo estágio de registro entre os 16 e os 18 anos de idade --- mas existe o reconhecimento acadêmico (vide Cohen et al 1997; Cohen-Kettenis & Gooren 1999) que o segundo estágio deve vir a ser antecipado. Só depois pode haver a classificação definitiva do gênero do indivíduo--- e mesmo assim, permitindo sempre um re-questionamento existencial, em casos extremos (de androginia existencial).

Nos casos problema, uma profunda avaliação de gênero até os 10 a 14 anos se faz necessária. Para tanto é fundamental a qualificação de especialistas em avaliação do gênero e seus problemas --- Fausto-Sterling também considera fundamental essa formação e especialização, conforme citação dela em Colapinto 2000, à pg 259 da tradução brasileira --- embasados em novos "insights", num permanente desenvolvimento da compreensão do que é o gênero, como se desenvolve no sistema neuro-psíquico, como pode estar em discordância, como prevenir possíveis disforias, como não agredir social e juridicamente os disfóricos de gênero e os andróginos, e como, através de correções cirúrgicas e endócrinas, numa sociedade inclusiva, aceitá-los e integrá-los plenamente (sempre que essa vontade for expressamente adotada por eles --- vide Fausto-Sterling 2000; Colapinto 2000).

Para tanto, são necessários métodos precisos de diagnóstico.

Por isso, propomos um intenso programa de pesquisas na área das disforias de gênero em sexologia, incluindo:

*** Programas de pesquisa na área de endocrinologia molecular, estudando-se a ação hormônio-seletiva de AR nos casos de mulheres disfóricas (geneticamente masculinas --- existencialmente femininas)

*** Programas de avaliação de diferenças em neuro-imagens, principalmente quanto à sincronicidade e assincronicidade em relações basais e corticais com o SBN.

*** Verificação da importância do estado emocional das mães de disfóricos de gênero durante sua gestação.

*** Desenvolvimento de testes lúdicos em crianças para avaliar reações expontâneas gênero diferenciadas (o método DAP--- "draw a person" de Machôver não tem se mostrado muito efetivo - por isso não tem sido muito utilizado- vide Petersen & Dickey 1995).

*** Desenvolver a cultura do respeito da autonomia do como o outro se vê quanto ao gênero.

Adendo:

Mesmo entre eminentes sexólogos, médicos e psicólogos, existem ainda dificuldades na compreensão das diferenças entre homossexualidade, travestismo e transexualismo. Sabendo disso, vamos procurar comentar um pouco mais esse assunto, com base no paradigma proposto e no paradigma atual.

Pelo paradigma atual, homossexualidade, travestismo e transexualismo são "desordens". No caso da homossexualidade, médicos (através do CID) e psicólogos (através do CFP) já começam a admitir que não se trata de "desordem", mas a norma DSM-IV dos psiquiatras americanos ainda mantém essa situação --- de qualquer forma a postura original deriva do paradigma atual. O primeiro, uma desordem na orientação sexual, como "drive"; travestismo, uma desordem de vivência de papel social de gênero; transexualismo uma desordem de identidade de gênero.

Pelo paradigma que propomos, nenhum desses fenômenos classificamos como "desordens" de nenhuma espécie (no caso da homossexualidade, a OMS e o CFP efetivamente há algum tempo já adotaram essa mesma postura frente ao fenômeno, mas quanto ao travestismo e às disforias de gênero, ainda mantêm a postura original de considerá-las "desordens" de papel e de identidade, respectivamente).

Homossexualidade deve ser diferenciada, antes de mais nada, em várias homossexualidades, tanto masculinas como femininas. O velho marquês de Sade já separava corretamente essas coisas, há muito tempo atrás (vide Sade, 1785). E não compreendemos nem as heterossexualidades como coisas ordenadas, nem as homossexualidades como coisas "desordenadas". Cada uma delas tem sua ordem própria, inclusive como mostra a natureza no comportamento sistematicamente bissexual entre os bonobos -Pan paniscus (vide deWaal & Lanting 1997), livremente no seu habitat na floresta, o hominíneo mais próximo do Homo sapiens sapiens; e o chimpanzé - Pan trogloditas por seu turno mostra um comportamento sistematicamente heterossexual, também livremente na floresta. Nenhuma das duas espécies pode ser catalogada como "em desordem" ou uma espécie "dentro da ordem natural" e outra "fora da ordem natural". Forçosamente, são duas espécies dentro da ordem natural, há pelo menos alguns milhões de anos. Essa diferenciação de ordem e desordem é puramente semântica e ideológica.

A nosso ver o travestismo (um se vestir, um se mostrar como) de forma alguma é uma desordem de qualquer espécie, nem física, nem mental, nem psíquica, nem social. É uma postura social específica, muitas vezes conveniente, outras vezes prazerosa, outras vezes até necessária, algumas vezes rebelde. Qual executiva não se traveste masculinizando-se com terninhos e gravatinhas, numa empresa, numa reunião de Conselho ou de Diretoria? Será uma "desordem" motivada por alguma psicopatia ou sociopatia? O que choca não é o travestismo feminino, que na realidade é valorizado como uma demonstração de ascensão social, mas o masculino. Por quê? Pela ideologia dominante, que considera valor na mulher se masculinizar, e indecência o homem se feminizar. Se uma mulher resolver por uma cueca ela vai ficar uma gracinha, mas um homem com calcinha é ridículo. O problema está então na "desordem" de nossa ideologia machista introjetada e dominante, por ser parcial e manipuladora, e não em quem se traveste, por desejo ou por necessidade ou interesse.

O transexualismo, como este artigo mostra, é uma disforia de gênero, um problema biológico e congênito; não uma "desordem de identidade de gênero", mas uma discordância entre dois sistemas biológicos: o neural e o genital. Mas o neural prevalece, porque determina o si-mesmo neuro-psíquico da pessoa. Então, se existe uma desordem ela é genital e precisa ser corrigida, porque a pessoa como si-mesma, acima de tudo dentro de nosso paradigma, precisa ser respeitada.

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Agradecimentos: Este trabalho só foi possível pelo suporte financeiro proporcionado a Wal F Torres pela Capes.
Correspondência: Toda correspondência deve ser encaminhada a Wal F Torres, Mestrado em Sexologia da Universidade Gama Filho-UGF.