Nossos sentimentos pelo passamento prematuro de
RAIMUNDO PEREIRA
Do Atobá
em 2006

Nossa Sociedade Neurótica e seu Modelo Distorcido de Realidade

Escrito em homenagem ao Grupo Atobá do Rio de Janeiro em 2000
por Wal Torres# (Martha Freitas)

# Wal nesse tempo era candidata ao MS em sexologia na UGF-Rio, Brazil
Convidada pelo Atobá, escreveu esse capítulo de um livro que não foi editado.



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Sempre que estive no Atobá falei sobre o bonobo, um macaco descoberto neste final do século XX, que a meu ver foi uma das maiores descobertas científicas de todos os tempos.

Agora, neste momento, não tenho como não começar me referindo a ele.

Nas florestas do Congo, existem dois tipos de macacos quase humanos: os chimpanzés (Pan trogloditas) e os bonobos (Pan paniscus). Nós e os bonobos somos descendentes dos chimpanzés. Dos bonobos nós somos primos.

Nos diferenciamos dos chimpanzés há uns 4,5 a 5 milhões de anos, e os bonobos se diferenciaram deles há uns 2,5 milhões de anos, ou seja, eles são geneticamente mais "modernos" que nós. Mas à partir do chimpanzé eles evoluíram num sentido diferente de nós: nós evoluímos nossa inteligência, e eles ao que tudo indica desenvolveram sua sensibilidade e altruísmo.

A sociedade chimpanzé é como a nossa: sexualmente a regra é a heterossexualidade, e sexo é feito para a procriação. Os machos são dominadores e violentos, entre eles e com as fêmeas. Todos, machos e fêmeas, parecem uns neuróticos. Existem guerras e lutas de extermínio. Parecem-se muito conosco, são nossos bisavós.

A sociedade bonoba se desenvolveu de forma diferente. Eles tem sistematicamente um comportamento bissexual na natureza: na infância, os macaquinhos machos se relacionam entre si, sistematicamente. Idem as macaquinhas. Eles crescem numa sociedade que para nós seria "libertina", "promíscua", mas sem frustrações.

Depois de crescidinhas, as meninas macacas se afastam da tribo, e procuram uma outra, e lá não se relacionam com os machos, mas com as fêmeas. Depois de transarem com quase todas as fêmeas, elas são "aceitas no grupo", e passam a transar também com os machos, além de por toda a vida transarem entre si, com muito mais frequência do que com os machos.

Essa sociedade é extremamente pacífica, bem resolvida, sem conflitos e problemas, fazendo sexo e não se agredindo. Machos com machos, fêmeas com fêmeas, e machos com fêmeas. Uma sociedade a nossos olhos promíscua, imoral, desencaminhada? Mas aos olhos da natureza, equilibrada!

A promiscuidade e a degradação não estarão em nossos olhos?

Como em nossa sociedade está o desequilíbrio da violência? Ainda hoje a mulher ter prazer é considerada uma coisa indecente. Seria humilhante o prazer? O que teria valor seria o sofrimento? Somos, as mulheres que dão vazão à libido e à própria feminilidade, caracterizadas como "vadias". Até na música do funk. Como se o prazer fosse uma vergonha, uma imundície!

Eu gosto de minhas primas bonobas. Elas são mais felizes que as chimpanzés, que apanham dos machos, se agarram neuroticamente às crias, dependem exclusivamente do humor dos machos; e aceitam naturalmente uma sociedade machista e violenta ao extremo, que não aceita o diferente, perscrutando as diferenças ao invés de realçar as semelhanças.

A bonoba vive e deixa viver. Infelizmente, essas relações mais livres, na nossa cultura da opressão e do autoritarismo, do machismo e da prepotência..... a cultura da mediocridade ocidental, que dificulta o prazer e a descontração, que torna tudo difícil, porque tudo é tabu, nada que pode dar prazer é lícito: onde sofrer é bom e santo, ter prazer é mal e depravado.

Na natureza existe continuamente a valoração do prazer e a fuga do sofrimento. Quem valoriza o sofrimento e o fazer o outro sofrer, depreciando na realidade o outro além do prazer, é nossa cultura neurótica, nossa cultura chimpanzé humanizada sob uma película de racionalidade, excludente do outro, do diferente.....colonizadora em todos os sentidos ..... escravizadora ...... opressora da minoria, ....... castradora do diferente.... desvalorizadora do que não conhece e não compreende.....destruidora do meio em que vive, da natureza que a sustenta....eliminadora arrogante do outro, do não si mesmo. Cultura que explora inapelavelmente o outro, esvaziando-o e destituindo-o de seus valores, suas verdades, suas crenças e sua maneira de ser no mundo....tornando o outro pagão, gentio, imundo, promíscuo, como por um decreto divino, .... considerado efeminado, portanto desvalorizado, se for sensível..... considerado animalizado se for instintivo e natural.... desconsiderado simplesmente por não ser eu mesmo, no meu egoísmo, egoísmo que se alia à prepotência, e ambos, travestidos em uma falsa "revelação" da divindade, que seria tacanha em sua "pureza" e "santidade". Auto-justificada, essa atitude se arvora em norma, em lei, em estatuto divino, social e humano. Isso sim, essa atitude intelectualmente promíscua é que transforma a divindade num chimpanzé, um macaco neurótico, violento e agressivo como nós, e assim fazemos da divindade alguém à nossa imagem e semelhança.

Eu sonho com uma sociedade bonoba. Um mundo onde o prazer não seja pecado e o sofrimento não seja, "de per se", redentor. Onde não se imagine que o outro e o diferente tem que ser igual a nós, senão será "gentio", "pagão", inferior e necessariamente pior que nós, que recebemos a "revelação", como arrogantemente ousamos destruir o índio, escravizar o negro, perseguir o diferente na sua forma de amar e se apaixonar, maltratar o portador de deficiência, desprezar a mulher e o valor do feminino, chamando de puta a que nunca foi puta, e de santa a neurótica reprimida e repressora, ambas vítimas desse machismo dominador ocidental.

Talvez o leitor tenha se assustado. É para se assustar mesmo, porque essa realidade é assustadora. Nós vivemos num mundo em que se valoriza o sofrimento, principalmente dos outros, e onde o prazer é considerado desprezível --- quando é dos outros. É o mundo da hipocrisia, em que as aparências valem mais que as realidades, e em que as realidades são tenebrosas---valoriza-se e deprecia-se invertendo os valores.

No passado faziam o corpo sofrer (o corpo dos outros, principalmente das mulheres), para salvar a alma. Porque as almas deles que ditavam a lei já estavam salvas, por suas próprias normas. Eles eram iluminados, de acordo com suas regras. Eles se justificavam a seus próprios olhos, porque ditavam as regras. Essa dominação continua inalterada. Ela mudou, se travestiu, se disfarçou, ficou mais sutil e aumentou. Se aprofundou, se introjetou no inconsciente do mundo ocidental. Criou raízes ainda mais profundas, mudou de métodos: deixou a violência explícita, mas se tornou implicitamente violenta.

Como se manipula a realidade? Como podemos definir o real?

A realidade é "em si" incognoscível. O que fazemos, são modelos da realidade, nos quais acreditamos. Mas não conhecemos o real. Temos que estar conscientes disso. Inconscientemente, com muita facilidade identificamos o modelo com a realidade, e começamos a concluir e manusear o modelo como se ele fosse a realidade. Foi isso o que se fez na física até o início do século XX com a descoberta da gravitação universal por Newton, e anteriormente com a cosmologia de Ptolomeu. O modelo de Ptolomeu era um bom modelo para simular a movimentação da maioria dos astros..... para prever as estações do ano....ele simulava bem a realidade, ao nível de detalhe que se precisava e que se podia obter em seu tempo. O problema surgiu quando alguns fatos começaram a não ser explicados, e ele passou a ser questionado, por Galileu e Copérnico. Mas, na pretenção de conhecer a "verdade" e a "realidade", o poder dominante tentou impedir o surgimento de um modelo melhor porque poderia destruir os seus dogmas. Portanto, se abria mão da verdade e realidade, em função de dogmas particulares de uma forma de pensamento e de ser no mundo: o equívoco essencial do ser humano ao longo da história.

Essa atitude repetimos no mundo da ciência, quanto aos problemas de gênero, quanto à vivência dos papéis de gênero e quanto à orientação sexual, até hoje.

Newton, no dizer de Laplace, havia explicado tudo em física: nada mais havia a descobrir. A mesma atitude da defesa do dogma acima da realidade, devida à falta de compreensão de que o modelo jamais será a realidade.

Com a pesquisa do muito pequeno, e do muito grande, se mostrou que a física de Newton era um modelo excelente, para uma escala da realidade, mas insuficiente para outras escalas. Depois Poincaré sugeriu seu importantíssimo conceito de que "a escala faz o fenômeno", que a maioria ainda hoje não compreende, e muito menos aplica.

Na física do muito pequeno, do muito grande, e do mais ou menos, fica evidente, com a relatividade de Einstein e a incerteza de Heizenberg, que os fenômenos físicos: ou seja, a nossa possibilidade de apercepção da realidade, depende da escala. A relatividade, a gravitação de Newton e os quanta, são fenômenos feitos pelas diferentes escalas à partir da nossa, e portanto cada modelo desenvolvido para cada escala, simula imperfeitamente aquela escala.

Como a realidade, mesmo física, em qualquer escala é incognoscível, não se pode, de forma alguma, falar em realidade: mas alguns insistem em manter uma realidade sua como absoluta, ou seja, querem continuamente impor sua forma de ser no mundo. Seu modelo como realidade, acima da própria realidade. É esse poder que hoje domina o mundo: tanto o capitalista ocidental; como o comunista chinês; como o mundo islâmico fundamentalista oriental. Hoje o mundo, ideologicamente se divide pelo menos nestes 3 grandes grupos, que procuram absolutizar os seus valores como realidade, não percebendo que não passam de modelos imperfeitos de uma realidade.

As pessoas com problemas de gênero, são vítimas dessa insanidade. São estigmatizadas, não pela realidade, mas pelos sistemas de modelamento da realidade.

A pessoa disfórica de gênero, como a pessoa transexual, é catalogada hoje em dia pela ONU, através da OMS, em seu catálogo de doenças, o CID-10 em vigor, como padecendo de uma "desordem de identidade de gênero- GID". Desordem, porque não se reconhecem de forma apropriada, porque tendo pênis não se reconhecem como meninos e mesmo tendo vaginas não se reconhecem como meninas. No sentido psicológico e psiquiátrico, eles "fogem da realidade", por um ou outro motivo desconhecido.

Os "especialistas" insistem em afirmar que as causas psíquicas dessas "desordens" são ignoradas, e qualquer tratamento psicológico ou psiquiátrico é inefetivo para fazer com que essas pessoas, sejam crianças, jovens ou adultos, "caiam na real".

Essa postura é absurda, do ponto de vista epistemológico.

Corresponde a dizer que Einsten tinha um problema de "desvio da realidade", porque "fugia da realidade" de Newton, quando imaginava observar dados do muito grande, e Heizenberg tinha "desvios de conduta" e "fuga da realidade" por perceber no muito pequeno a incerteza. Einstein e Heizenberg se adaptavam plenamente à realidade que viviam e percebiam, "mas não ao modelo então vigente".

Einstein e Heizenberg, se avaliados por psiquiatras e psicólogos, certamente seriam considerados, como o são os disfóricos transexuais, como psicopatas: ainda bem que naquele tempo essas duas categorias profissionais mal existiam, e eram ainda muito pouco influentes.

Infelizmente, eles hoje em dia têm uma grande influência na OMS, ---e até hoje ainda não perceberam que não diferenciam seus modelos da realidade (ainda estão no século XIX, e como Laplace "endeusou" Newton, eles ainda "endeusam" Freud e assemelhados), e permanecem estigmatizando pessoas: por isso encheram, durante decênios, os manicômios de pobres pacientes, vítimas muitas vezes fabricadas por eles mesmos e por sua ignorância.

O dia que o ser humano tiver mais consciência de que os fenômenos não são a realidade, mas os modelos imperfeitos que fazemos da realidade, e que a escala faz o fenômeno, então, e só então, nos aproximaremos efetivamente do que se pode conhecer da realidade. Mas aí teremos um conhecimento sempre particular, sob uma ótica e um ponto de vista, de forma complementar. Um conhecimento holista, sistêmico, em que por mais que somemos os pontos de vista, não atingiremos o todo, que sempre será hipercomplexo, além de nossas capacidades, a menos que reduzamos o conhecimento a fenômenos modelados, simulados, percebidos pelo que realmente são: percepções parciais e imperfeitas da forma como podemos perceber a realidade.

Como podemos aplicar o conhecimento de Poincaré sobre escalas, no caso do gênero? Na física, reconhecer as escalas é fácil, mas no gênero?

Proponho para o gênero 3 escalas de harmonia interna: a primeira, a da harmonia completa, em que a pessoa tem sua realidade genital e neuro-psíquica em harmonia interna: para ela é indiferente ser classificada pela identidade ou pelos genitais, pois está em harmonia: corresponderia ao modelo de Newton da física, onde percebemos a grande maioria dos fenômenos, assim também, a grande maioria das pessoas vivem os fenômenos de gênero e de sua vivência sexual, sob o ponto de vista, ou escala da harmonia : onde é indiferente o posicionamento do referencial, como é indiferente o posicionamento do referencial na física de Newton.

Um outro grupo, correspondente à relatividade na física do muito grande, onde o tempo como se expande e o espaço se retrai e se encurva, se distorce, corresponderia à situação de gênero vivida pelo disfórico: a identidade se expande, adquire uma importância acima do comum, porque os genitais como que se distorcem, se deformam aos olhos do disfórico: precisam ser adequados à sua realidade, para que ocorra a harmonia interna. O gênero passa a ser determinado por um referencial específico, o referencial passa a ser importante, como em Einstein, quando não era importante em Newton. A importância do referencial do gênero como identidade, que é vivida pela pessoa, e centraliza sua vivência. Por outro lado os genitais deformados, precisam e podem ser corrigidos: porque toda pessoa humana, tem como pessoa o direito a uma vida em harmonia, consigo mesma e com a sociedade em que existe. Mas, compreendida a situação e corrigido o problema, a pessoa se sente normal, e assim precisa e deve ser social e juridicamente reconhecida.

A outra escala do gênero, é a escala "quântica", ou da incerteza, que designamos como androginia: a pessoa não se define, quer internamente como identidade, quer genitalmente. Como nos quanta, existe uma incerteza: em situações e momentos ela é mais masculina, em outros feminina, e essa ambiguidade permanece sempre. Esse fenômeno é extremamente raro no mundo : estima-se que existam, para 6 bilhões de pessoas harmônicas, 24 milhões de disfóricas, e apenas 100 mil andróginas --- estimativa de Fausto-Sterling.

E os homossexuais, gays, lésbicas, travestis (transgêneros), cross-dressers, drag queens e kings? Essas pessoas não têm qualquer problema que ultrapasse sua forma diferenciada de amar, de se mostrar, ou de ser no mundo.

E conviver com o diferente, inclusive sexual, não passa de um dever humano --- já que ser diferente é um direito --- mas nossa neurose social e acadêmica ainda insiste, e mesmo o CID-10, em patologizar os cross-dressers e transgêneros, o que beira o ridículo do "Malade Imaginaire", de Molière.

Tendo conhecimento e consciência dessa limitação humana quanto ao nosso possível conhecimento do real, jamais tornaremos a imaginar que, por não se adequar a um modelo, ou a uma forma de ser e compreender o mundo, Einstein, ou Heizenberg, ou uma pessoa disfórica, ou transexual ou andrógina ou com uma forma de amar homossexual, ou como uma forma de se mostrar transgênero ou como drag ou cross-dresser, poderia ter algum problema psiquiátrico. Portanto, a classificação dos problemas de gênero no CID precisa ser corrigida e os conceitos de "desordens de identidade de gênero" precisam ser esquecidos --- vide nosso anteprojeto de adequação do CID, no nosso site: www.gendercare.com onde apresentamos nosso anteprojeto integralmente para conhecimento público. Porque no caso dos problemáticos de gênero, como no passado "os homossexuais", como as "mulheres histéricas", como os "masturbadores", todos foram patologizados insanamente de forma estigmatizadora. Só que os problemáticos de gênero continuam estigmatizados: os homossexuais se livraram do CID, as "histéricas" se livraram de Freud, e os "masturbadores" se livraram de todos os anteriores, podendo ser pessoas normais.

O disfórico de gênero, cada dia mais se reconhece, nasce com um problema de desarmonia biológica, da conformação genital com a organização neural de gênero. Essa organização gera, limita e condiciona dinamicamente a identidade de gênero, que independe do sexo de criação e do meio social na infância --- que são importantes como reforçadores positivos ou negativos da identidade, mas não como determinantes do fato gerador da identidade de gênero --- o fracasso de Money, relatado por Colapinto no caso dos gêmeos, não deixa dúvidas sobre o assunto, assim como o depoimento de milhares de manipulados pelos métodos de Money, da ISNA-Intersex Society of North America.

Essa discordância gera o mal estar ou a disforia de gênero --- a sociedade classifica pela aparência genital, mas a pessoa se reconhece e se identifica com sua identidade neuro-psíquica --- e se instala, desde a mais tenra idade, o mal estar. A criança pode se mostrar como é --- como Roberta Close, por exemplo; ou se esconder ---- ter a disforia sofrendo em silêncio. As duas situações são difíceis de suportar: a primeira, do "transexual primário", pela discriminação social. As "transexuais secundárias" se protegem mais socialmente, mas sofrem intimamente: ....e um dia, tendo a oportunidade, elas aparecem.... e são ainda mais grotescas e estranhas, aos olhos dessa sociedade ignorante.

Aos olhos de uma parte da "ciência", têm problemas com a realidade, e precisam ser "tuteladas" por sexólogos médicos, psiquiatras e psicólogos, mesmo após sua maioridade: precisam de avaliações de outros para saberem quem são, como débeis mentais, o que é uma atitude inconcebível. Tuteladas, discriminadas, estigmatizadas....ainda, quando operadas precisam ser lindas, femininérrimas, equilibradas, educadas, elegantes, inteligentes ....e ainda suportar serem consideradas "transexuais masculinos", "homens operados", no meio acadêmico e científico, e mesmo em provedores de internet, como a Terra Networks, da qual sou assinante, e por isso posso falar, que designou o papel de Cláudia Raia numa novela da Globo, como de "um transexual". ....e quando protestei, fizeram, como sempre, ouvidos de mercador ....

Uma situação de tortura, de insanidade por parte das autoridades, dos governantes, da ONU, da OMS, .... uma fuga neurótica da realidade, se não psicótica, da parte deles, e não dos disfóricos. Porque eles continuam considerando seus falsos modelos a própria realidade, com a qual o disfórico tem que se adaptar.

E o Atobá? O que esse blá-blá-blá todo tem a ver com os 15 anos do Atobá?

Há 15 anos atrás, um atobá, um pássaro, que estava sendo morto e sacrificado por imbecis, foi salvo, resgatado, comprado por um grupo de rapazes com orientação preferencialmente homossexual em sua forma de amar. O pássaro foi salvo, tratado, depois liberto por eles. Eles tanto sabiam amar, que também amaram a pobre criatura e a libertaram. E foi um amor extremamente hetero que demonstraram pelo pássaro, que era muito diferente deles. Infelizmente, na mesma época um outro ser vivo, um rapaz com orientação homossexual do bairro, não teve a mesma sorte. Foi cruelmente morto, e ninguém o resgatou das mãos de seus algozes, nem tratou dele, nem o amou, nem o libertou.

15 anos depois, apesar do exemplo do Atobá, Luiz Mott nos mostra a imbecilidade humana e brasileira, em seu livro sobre o assassinato de homossexuais no Brasil --- as fotos dos travestis serrados ao meio são de fazer chorar, das lágrimas escorrerem por terem vida própria, tal a imbecilidade dessa sociedade psicótica em que existimos.

Uma sociedade que se diz civilizada, mas rejeita que os disfóricos de gênero possam ser corrigidos e integrados civil e juridicamente, como pessoas normais, estigmatizando-os perpetuamente, não importa o que façam. Que mata pessoas por sua diferente forma de ser no mundo, de se mostrar, ou de amar. Ou por padecerem de um mal congênito na organização neural de seus cérebros, em discordância com seus genitais. Que mutila crianças e bebês intersexuais, cirurgicamente fazendo-as disfóricas, esperando irresponsavelmente que elas "aprendam a se adaptar aos seus genitais". Uma sociedade que faz ouvidos de mercador para as vítimas, e que aceita impunemente as manipulações de dados científicos por parte do poderoso John Money. E tudo isso feito em nome de Deus, da moralidade e dos "bons costumes", ou em nome de uma "ciência".

Por isso eu gosto e quero homenagear o Atobá. O atobá pássaro, e principalmente o Atobá grupo, o Atobá gente, que cuidou do pássaro, e o libertou. Porque este país precisa é de homens e de gente assim, como os do Atobá: homens de verdade, que tenham a coragem de amar e de libertar os cativos do próprio destino.

Bibliografia Sugerida

COLAPINTO,J --- Sexo Trocado : a história real do menino que criaram como menina (2000), Ediouro 2001;

FREITAS,MC---Meu Sexo Real: a origem inata, somática e neurobiológica da transexualidade, Editora Vozes, 1998;

FREITAS,MC --- Disforia com o corpo e não com o papel social; Anais do VII Congresso Brasileiro de Sexualidade Humana, 132-133, Rio de Janeiro 1999;

MOLIÈRE --- Le Malade Imaginaire,(1672) ,GF Flammarion,1995;

MOTT,L --- Violação dos Direitos Humanos e Assassinato de Homossexuais no Brasil, Editora do Grupo Gay da Bahia, 2000;

TORRES,WF & JURBERG,P --- Ser Homem ou ser Mulher : a identidade neuro-psíquica de gênero como referencial, Scientia Sexualis 6(3) 2000;

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