Elisabeth Orsini - Caderno ELA O Globo - Infoglobo wrote:



Olá Martha, meu nome é Bety Orsini e trabalho no Caderno ELA do jornal O GLOBO.

Estou fazendo uma reportagem para o ELA sobre transexuais:

A moda, que reflete muito as mudanças de comportamento, está apostando neles.

O filho do jogador Toninho Cerezo, por exemplo, virou a modelo Lea T. Desfilou para Givenchy e agora vai desfilar para o Alexandre Herckovitch.

Aliás, Lea T. está na capa da revista LOVE dando um beijo na boca da Kate Moss. A foto tem um clima totalmente andrógino.

Atores também trocam suas belas namoradas por transexuais.
Kelly Osbourne, por exemplo, apareceu na imprensa porque foi traída por seu ex com uma transexual, com quem o ex está até hoje.

E Lady Gaga está selecionando transexuais femininos para seu próximo clipe, "Born this way".
De acordo com o blogueiro Perez Hilton, membros da equipe da cantora de 24 anos foram vistos em uma festa em Nova York, procurando as possíveis candidatas.

Há também um modelo com jeito totalmente feminino: Andrej Pejic que fechou o desfile masculino de Jean Paul Gaultier encarnando uma "bombshell", em referencia ao lado "feminino" de James Bond, inspiração do estilista esta temporada.

Enfim, eu gostaria de ter um depoimento seu sobre isso. Pq os transsexuais estão fazendo tanto sucesso? Eles estariam materializando o fim do masculino/feminino?

O mundo se encaminha para a androginia?

Aguardo sua resposta.

Um beijo, Bety

Obrigada Bety pelo convite. Pergunte o que quiser e procurarei responder!

Elisabeth Orsini - Caderno ELA O Globo - Infoglobo wrote:

Aí vão as perguntas. Beijos

1 - Li um resumo do seu livro dizendo que a transexualidade é conseqüência da desarmonia na estruturação neural do feto.

Isso mesmo. Eu escrevi esse livro em 1995 - foi publicado em 1998.
Depois desenvolvi mais o estudo num mestrado na Gama Filho entre 2000 e 2002 com bolsa da Capes.

1a - Essa definição está correta?

Correta.

O ser humano se percebe pelo cérebro.
Tudo que percebemos - e percebemos a nós mesmos - ocorre no e pelo cérebro e pela ação do sistema nervoso central.
Quando falo cérebro digo o SNC-sistema nervoso central como um todo.

Percebemos nossa dor, mal estar, prazer, medo... atração sexual e nossa propria identidade, inclusive de genero - pelo SNC.

Então minha pergunta em 1995 foi - o SNC do homem e da mulher - e das femeas e machos entre primatas, mamiferos e outras espécies são iguais?

E não são. São diferentes.

As diferenças são inumeras - sem contar as que ainda desconehecemos.

Mas resumindo:

Temos diferenças sub-corticais ou basais - que são profundas e dizem respeito ao como nos percebemos, como nos sentimos.

E corticais - que mostram diferenças em como verbalizamos, reagimos, pensamos, raciocinamos.

A identidade de genero é caracteristica basal.

Uma amnesia profunda retira sua memória de seu endereço, nome , casa... familia... até profissão.

Mas não elimina sua certeza de auto-percepção de ser homem, mulher, ou quem você for.

É coisa basal, profunda, subcortical.

É aí - no SNC basal que estão os grupos de neuronios que nos dão a sensação de sermos quem somos.

Pesquisadores descobriram - e depois muitos confirmaram - isso que afirmo. Hoje não há mais duvida cientifica.

E estudo de cérebros de pessoas MtFs (do masculino para o feminino) e vice versa FtMs confirmam, que pessoas MtFs tem o cérebro basal mais para F que para M - e vice versa.

1b - Se estiver, então o transexualismo é uma anomalia?

Não é uma anomalia - é uma DIVERSIDADE.

Aqui vou ter que esclarecer um pouco mais.

Uma anormalidade ou anomalia, necessita de uma normalidade. Um padrão normal, do qual possam existir poucas condições de pequenos afastamentos.

A distancia do polo M ao polo F, é infinita - como é a distancia entre o norte e o sul.

A medicina - e a psicologia - imaginaram sempre que viviamos num universo, num mundo de normalidades e anormalidades. Até meados do século passado se imaginava que no mundo a regra eram as distribuições normais, pela regrinha do sino.
Mas um economista e matemático do inicio do século XX - Pareto o nome dele, descobriu que a maioria das coisas não era assim. Ele comparou as fortunas das pessoas. Muitos sem nada, indigentes. Poucos com bilhões. Qual era a riqueza normal?

E daí eu pergunto: Qual o terremoto normal? E o furacão normal?

Qual a crise governamental, midiática, empresarial, cambial normal?

Qual o estado mental normal?

Qual o problema sismico normal?

Qual a população de uma cidade normal?

Daí se descobriu as distribuições de Pareto - ou independentes de escala - ou FRACTAIS.

Hoje mais sofisticadamente se estuda as distribuições alfa-estáveis de Levy-Pareto, muito gerais.

E hoje sabemos - o mundo é muito mais fractal que normal - o normal é ser fractal - ou seja - não existem condições normais e anormais, mas comuns e incomuns.

E entre os incomuns existem os extremos.

Eu mostrei num paper apresentado no 20° Congresso Bianual da WPATH (World Professional Association for Transgender Health), da qual sou membro titular desde 2002, em Chicago durante 2007 que a distribuição de incomuns de genero é fractal e não normal.

Não existem anomalias - nem anormalidades, nem normalidades - o que existe é a diversidade - com muitos incomuns, e alguns extremamente incomuns.

A transexualidade é a condição extrema.

A Travestilidade é a condição forte mas não extrema.

O Crossdressing é uma condição moderada mas muito variada.

Portanto a medicina - psiquiatria, e a psicologia precisam rever seus conceitos e sua epistemologia - pois normalidades são raras, e anormalidades são pouco comuns na natureza. Na Natureza as coisas se desenvolvem de forma fractal. E nós somos primatas, desenvolvidos na natureza, de forma fractal.

2 - Qual a diferença entre travesti e transexual?

Acho que expliquei acima.

Transexual é uma condição extrema.

Travestilidade é uma condição forte mas não extrema.

As etiologias (causalidades), podem variar.

As transexualidades geralmente são profundas e enraizadas no SNC desde a gestação - as travestilidades podem ser menos enraizadas, adquiridas na infancia por exemplo. Existem muitas nuances entre as travestilidades e mesmo entre as transexualidades.

Pela Gendercare - clinica virtual de alcance mundial, que avalia pessoas incomuns em 4 linguas pela web, desenvolvida por mim durante meu mestrado em 2001, quando voltei depois de apresentar algumas idéias por ocasião do XV Congresso Mundial de Sexologia de Paris, hoje nós medimos as intensidades através de testes online e entrevistas dirigidas pela web.

E diferenciamos com precisão as condições no espectro de genero.

Fazemos isso para podermos orientar o que fazer ou não fazer em transições MtF e FtM, e orientamos inclusive cirurgias em muitos países do mundo. Trabalhamos em contato com os melhores cirurgiões de redesignações sexuais do mundo.

3 - Como vc se sentia emocionalmente antes da operação de mudança de sexo?

As pessoas se sentem de muitas maneiras.

Poucas podem ter condições mentais reais associadas, geralmente em consequencia de sofrimentos. Mais raramente ainda podem haver causas mentais.

Mas na maioria das vezes as pessoas se sentem inadequadas. É assim que se sentem.

Mas não importando como a pessoa se sinta, é importante sempre um screening mental - um peneiramento com testes ou entrevistas dirigidas, para nos certificarmos que a pessoa pode se transicionar e mesmo ter suas cirurgias desejadas.

4 - Pq vc acha que o universo da moda está contratando transexuais para posar em editoriais de moda femininos em vez de contratar mulheres?

Porque o universo da moda é moda!

Amanhã a moda muda.

E para fazer moda se inventa moda e modismos. Acho que é por aí.

E é excitante, é misterioso, ter uma modelo transexual MtF na passarela, ou beijando mulheres e homens. Modismo.

E vice versa meninos FtMs... muitos lindissimos... poque não nas passarelas?

O que me irrita um pouco é nunca haver visto um personagem em novela na TV brasileira, fazendo papel de transexual ou travesti - SENDO UMA ATRIZ TRANSEXUAL OU TRAVESTI.

Essa seria pelo menos uma oportunidade profissional para elas e eles.

Mas sempre outros fazem os papeis deles - o que eu abomino. Pois até nisso fecham as portas profissionais para eles.

É ótimo a moda lhes dar oportunidade profissional.

E espero que sejam muito bem pagas e pagos - como os outros o são.

5 - O futuro é a androginia?

O futuro espero que seja a compreensão de que os polos sexuais são reprodutivos - e numa sociedade superpovoada de humanos, num recinto fechado e limitado como este planetinha - a androginia certamente precisará ter seu espaço.

Espaço sexual, estético, cultural, existencial.

O futuro não é necessariamente androgino - mas a androginia ganhará seu espaço com certeza - e com tendencia a ganhar seu espaço de forma crescente.

6 - Como vc se sentia antes da operação?

A pessoa que precisa de uma readequação sexual, antes da readequação cirurgica, hormonal, existencial, pessoal, profissional e academica, se sente inapropriada. Em desarmonia. Sem paz.

A harmonia traz a paz, consigo e com os outros - se os outros deixarem.

Por isso as cirurgias - bem avaliadas, planejadas e perfeitas - só trazem paz e harmonia.

7 -Vc está com algum novo livro para lançar?

Pretendo lançar ainda um livro explicativo, dessas coisas em maior detalhe e profundidade. Mas não teses academicas emboloradas e enclausuradas em camisas de força.

E um manual de sobrevivencia pratico para os incomuns - num mundo em que os comuns são bem mais numerosos.

Quem sabe?

Pergunte Bety!

E se quiser esclarecimentos, escreva!

Dra.Martha Freitas
Gendercare
OII Organização Internacional de Intersexuais.

Em 24 de janeiro de 2011 17:25 free counters



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