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Entrevista dada por emails em 27/10/2008

Boa dia, Dra. Martha.

Meu nome é Cida Alves, sou jornalista e faço um curso de jornalismo aplicado no Estadão.

Quem me passou os contatos da senhora foi a Maitê Schneider, de Curitiba, que me concedeu uma entrevista.

Estou fazendo uma matéria para o curso sobre mudança de sexo, e gostaria de entrevistá-la como especialista para falar sobre a transexualidade e a importância dessa cirurgia para quem apresenta essa característica. Falaríamos também sobre como acontece o acompanhamento psicológico dos pacientes nesses casos.

A senhora poderia me ajudar? Caso sim, seguem algumas perguntas abaixo. Se preferir, podemos falar ao telefone. É só me enviar os seus contatos e o melhor horário para eu ligar entre hoje e amanhã (terça-feira, 27, dia que preciso entregar a matéria).

- O que é a transexualidade?

Cida, vou ter que aprofundar um pouquinho.

O que é o gênero?

Genetica e evolutivamente, os gêneros existem com uma finalidade inicial reprodutiva. Tanto a masculinidade como a feminilidade, em qualquer espécie, existe em primeiro lugar para manter a espécie e a variabilidade genética da espécie, aumentando a chance de sobrevivência do indivíduo e da espécie.

As espécies mais primitivas, são "plasticas" quanto ao gênero. Muitos peixes mudam radicalmente de corpo e atitude, quando as circunstâncias exigem. Mesmo em muitos anfíbios, uma mudança radical de corpo e atitude (sexo e gênero), pode ocorrer.

Mas com a complexidade e a evolução das espécies, o sexo - e o gênero - vão se solidificando mais cedo, se tornando menos plásticos. Em répteis, pode-se alterar sexo e gênero enquanto ovos, mas depois de nascidos as alterações são limitadas. O mesmo acontece com as aves e os mamíferos.

Mas observa-se outros fatores interferindo com a complexidade dos sistemas.

No homem, a complexidade é muito grande, e observa-se que o sexo vai além da reprodução - o mesmo acontece entre outros primatas não humanos, como bonobos e macacos japoneses - onde o sexo passa a ser mais complexo, não só reprodutivo, mas fonte de relaxamento e de prazer.

O sexo e o gênero passam então a ser bem mais complexos, mesmo que menos maleáveis, com a evolução das espécies.

Como se sente quem tem genitais masculinos perfeitos e funcionais ao nascer? Sempre um homem, com 100% de masculinidade? E vice versa a mulher?

O estudo dos casos de intersexo, e os estudos sobre o cérebro de primatas e humanos, nos fazem pensar em uma complexidade muito grande, na formação do sexo - existem realmente incontáveis possibilidades de intersexo com desenvolvimento sexual atípico - e também uma inumerável diversidade em como as identidades de gênero - como uma pessoa se percebe - com relação ao gênero!

Não são caixinhas estanques - mas uma enorme complexidade e diversidade.

Para simplificar, o gênero não se simplifica em uma caixinha rosa e outra azul - e quem estiver fora tem uma cor de burro quando foge, como uma anormalidade física (sexo) ou mental (gênero). Na realidade a diversidade, as nuances, as variações, são enormes, definindo o que podemos denominar de um espectro natural de possibilidades entre OS LIMITES do masculino e do feminino.

Dentro desses limites existe um amplo espectro de possibilidades.

Os cross-dressers - MtF e FtM (masc para o feminino e feminino para o masc);

Os transgêneros (travestis), geralmente MtF;

Os transexuais MtF e FtM, que consistem numa variadade de tipos;

Os Intergêneros, que vivenciam uma identificação não muito definida;

Os "normais", próximos dos dois limites, e geralmente reprodutivos;

Etc...

O que são os transexuais?

São essa categoria - uma família de pessoas, que pelos mais variados motivos, tendo nascido com um sistema sexual de um lado, se identifica - seu cérebro se percebe - como do outro.

A causa é multipla, e variada. Quase sempre relacionada com uma diferenciação inesperada do cérebro - principalmente do cérebro basal.

É considerado uma doença?

Era, e ainda é por muitos ignorantes.

Que ainda definem o reprodutivo NORMAL e os outros, ANORMAIS.

Mas no mundo isso muda - rapidamente.

Faço parte de sociedades internacionais que propõem a simples eliminação dessa CONDIÇÃO NATURAL, como doença mental.

Raramente existe uma doença mental correlata, e raríssimamente uma doença mental tem relação com a causa da condição.

Mas existe a possibilidade, da correlação. Por isso, sempre, julgo apropriada uma avaliação mental - ou um screening mental - numa avaliação.

- Como é feito o acompanhamento desses pacientes?

Antes de mais nada precisa haver o RECONHECIMENTO da CONDIÇÃO ("diagnóstico").

Nós na Gendercare Gender Clinic fazemos esse reconhecimento pela internet - através de entrevistas por emails e testes online - em várias línguas - com pacientes em vários países.

Reconhecida a CONDIÇÃO, e verificada a inexistência de uma verdadeira condição mental correlata ou causadora, orientamos pela internet o que a pessoa deve fazer - quando necessário com suporte local em endocrinologia - e cirurgias plásticas corretivas - e raramente com necessidade de acompanhamento psico-terapeutico local.

Nós, no momento exato, liberamos cirurgias com os melhores cirurgiões do mundo, para nossos pacientes, tanto MtF como FtM, em todos os níveis, de uma rinoplastia a uma cirurgia de redesignação sexual.

- O recomendado, nesses casos, é sempre a cirurgia de mudança de sexo?

Para uma pessoa verdadeiramente transexual, sim. Desde que a pessoa queira.

Mas como disse, a diversidade é enorme, e nem todos querem, nem necessitam.

- O que a senhora acha da cirurgia passar a ser oferecida pelo SUS e dos critérios que serão adotados para a seleção dos pacientes que vão fazê-la?

É muito bom que o Estado cuide desses pacientes, usando o que existe de melhor.

Vai ser péssimo se quiserem re-inventar a roda, ou usar coisas ultrapassadas.

Os critérios desconheço - entrei em contato com o SUS e o Ministério várias vezes sem resposta.

Vai ser uma pena, se usarem métodos arcaicos e ignorarem a Gendercare - que avalia baratinho pela internet gente da China - mas talvez não vá avaliar brasileiros do SUS que ficarão anos esperando e sofrendo em filas.

Gostaríamos de orientar o SUS - se nos quisessem ouvir.

Sobre os critérios do Ministério da Saúde eles são, segundo matéria enviada pela assessoria de imprensa deles, os seguintes: "ter mais de 21 anos; ter diagnóstico de transexualismo com exclusão de outros transtornos de personalidade; e passar por acompanhamento psicológico ou psiquiátrico de pelo menos dois anos de duração"

Como você vê, eles não entendem do assunto!

Porque 21 anos se a maioridade é de 18?

E na Holanda e Thailandia, hoje em dia se faz cirurgias de redesignação com 16 anos - com tremendo sucesso.

Consideram sem questionamento um caso de transtorno mental - o que decididamente não é. É raramente, muito raramente. Assim estão estigmatizando - na realidade destruindo.

Querem ainda manipular, tutelar, interferir. Isso não só não é necessário muitas vezes, como pode ser até pernicioso para muitos pacientes, tanto MtF como FtM.

Aliás os FtM nem são contemplados no projeto do SUS.

Ou seja, resumo: Estão na Idade Média. Infelizmente.

Quais os problemas mais comuns dos pacientes que querem operar e não conseguem? Já li a respeito de auto-mutilação e depressão. São muito comuns? A senhora tem dados sobre isso?

O que fazer, quando não te compreendem, te estigmatizam, e impedem você de ser, de existir, e de se transformar numa pessoa respeitável numa sociedade?

Se você tem a alternativa de ter dinheiro e achar a Gendercare - estamos aqui para isso e ajudamos muitas pessoas.

Mas e se não tiver um PC conectado? E mesmo tendo o PC, não tendo recursos para fazer cirurgias e tratamentos particulares?

Muitos se desesperam - se tornam violentos, tentam o suicidio, se suicidam... se mutilam... isso realmente acontece.

Infelizmente o SUS se preocupa em limitar e tolher o paciente - QUANDO DEVERIA SE PREOCUPAR EM PREPARAR OS TERAPEUTAS.

Não temos terapeutas qualificados - não temos cirurgiões instruidos e qualificados - isso o programa do SUS não se preocupa - mas se preocupa em considerar o problema como o paciente.

Isso não vai dar certo.

Se pudessemos trabalhar com eles e nos ouvissem e respeitassem - poderia dar muito certo.

A Organização Mundial de Saúde, que considera a transexualidade como um transtorno de identidade sexual, trabalha com uma estimativa de um transexual para casa 10 mil homens, e um para cada 30 mil mulheres. Esses números estão dentro da realidade?

Quem te disse que a OMS pensa assim?

A posição da OMS é: não sei.

Por isso, delegaram nos ultimos anos, para os pacientes e terapeutas, e suas associações, se definirem.

O CID-11 vai sair em 2012 - e talvez tudo seja modificado então na OMS.

Cida, veja essas páginas no site da Gendercare:

www.gendercare.com/English/TJhipoteseE.html

e navegue no site.

É muito informativo.

Visite o site da OII - temos links para eles. Vale a pena.

A realidade hoje é outra.

A realidade do CFM/SUS/Brasil é medieval - infelizmente.

Para completar.

A OMS é muito influenciada pela APA- American Psychiatric Association - que emite suas normas DSM - hoje DSM - IV.

Essa norma considera casos de disforias de gênero como transtornos mentais, mas está em revisão para a edição da DSM-V o ano que vem.

Tudo está mudando, e na DSM-V esses casos serão eliminados ou muito suavizados, pois não são transtornos mentais nem deles derivados.

Para encerrar - sobre numeros de incidência, veja o trabalho de Lynn Conway, PhD - você acha facilmente na web - em inglês - esses são os melhores já levantados.

Dra.Martha Freitas/Torres, MSc, PhD
Gendercare Gender Clinic

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