Andrea, segue a entrevista revisada.
Está extensa.
Preserva mais o sério, o científico.
Minha vida pessoal não interessa.

Entrevista a Andrea Rifer (Jornal A Tribuna de Santos)


5 de junho de 2008

Andrea Rifer :
Antes de fazer a cirurgia, você passou por muitas situações. Trabalhou como engenheiro químico, deu aula em universidades e chegou até a se casar e ter filhos. Quais eram as suas principais dificuldades neste período?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Andrea, meu problema PESSOAL de gênero, nunca me pressionou. Eu, apesar de minhas tendencias MtF desde a primeira infância, consegui controlar plenamente minha vida adulta, vivendo como um homem qualquer. O que me facilitou a vida nesse sentido, foi minha facilidade em me apaixonar por mulheres. Me casei, tive várias relações sérias, e filhos.
Como homem, vivendo como homem, eu era, me sentia e agia de forma absolutamente comum. Isso não me pressionava, eu podia viver tranquilamente sem problemas.
Essa realidade NÃO É COMUM entre as pessoas que se sentem com uma falta de sintonia de gênero.

Andrea Rifer :
Em que ano você fez a cirurgia? E quantos anos tinha na época? Quantos anos tem agora?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Não gosto de entrar em detalhes sobre minha vida pessoal.
Fiz a cirurgia em 1997, tinha quarenta e poucos anos, hoje tenho sessenta e poucos.

Andrea Rifer :
Você tem contato com sua ex-esposa e seus filhos?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Com ex-esposas não. Um minimo, para o bem delas, não quero interferir nem incomodar. Elas têm as vidas delas, quero apenas que sejam felizes.
Os filhos estão crescidos, têm suas vidas, e não quero interferir, para o bem deles. Se precisarem de mim, sabem como me encontrar.

Andrea Rifer :
Foi por causa da sua cirurgia que mudou de profissão? E porque se especializou em sexologia?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Não foi pela cirurgia, mas pela transição MtF.
Ninguém sabe o que você tem entre as pernas - a não ser que você revele.
Socialmente você se mostra pelos caracteres secundários, que são perceptíveis , e pelas roupas, posturas.
Antes da cirurgia, ao me transicionar, eu teria que criar alternativas profissionais viáveis para mim, para poder sobreviver. A alternativa que encontrei, foi deixar a engenharia de lado, e estudar o assunto que me envolvia em profundidade.
Estudar medicina seria penoso - decidi pela sexologia.
Infelizmente em sexologia, NO BRASIL, existe muito preconceito - por parte de sexólogos psicólogos que dominam as poucas associações profissionais locais. Se oferece cursos de mestrado e de especialização, e depois, pela profissão não estar regulamentada, querem limitar sua atuação.
Eu sou hiper-especializada nesse assunto - sou uma autoridade mundial, discuto esse assunto mais lá fora que aqui dentro - aqui dentro não discuto, pois quando começo a falar os "especialistas" aqui não compreendem.
Mas eu criei meu espaço - tenho pacientes em avaliação, muitos já avaliados, transicionados e readequados, nos cinco continentes. Tanto MtF's como FtM's, como outros que não se enquadram plenamente na categorização simplista de dois gêneros estanques.

Andrea Rifer :
Em sua nova profissão, acabou conquistando reconhecimento internacional, principalmente com seu site. Como funciona o serviço que o site oferece? É uma espécie de clínica que ajuda a diagnosticar?

Dra.Torres/Martha Freitas:
A www.gendercare.com é a primeira Clínica Virtual de Gênero do mundo.
Foi idealizada quando voltei do XV Congresso Mundial de Sexologia de Paris, em 2001, a pedidos de muitos colegas estrangeiros, quando apresentei trabalhos que eram o embrião de minhas idéias em Paris. Esse embrião tomou alguma forma na minha dissertação de mestrado de 2002, e se consolidou na Gendercare.
Desenvolvemos na GENDERCARE, uma visão nova:

1. Do que são os problemas de gênero;
2. Do que causa esses problemas;
3. De como avaliar/diagnosticar esses problemas;
4. De como tratar de forma centrada no paciente;

No meio academico tradicional NO PRIMEIRO MUNDO, hoje em dia se discute se a avaliação e o tratamento desses casos, deve ser INTERVENCIONISTA, ou não. Hoje no mundo, está em vigor a norma DSM-IV em psiquiatria, que ainda é intervencionista - incluindo generalizadamente como sofrendo de um problema mental e estando sob a TUTELA PROFISSIONAL de psicologos e psiquiatras TODOS os casos de identidade inesperada de gênero. Agora se está estabelecedo os comitês para revisão da norma, para produzir-se a revisão DSM-V. Essa revisão, prevista para terminar em 2012, será importante, para definir a norma da Organização Mundial de Saude- OMS, chamada no Brasil CID-11, sobre esses assuntos.

Eu participo ativamente das discussões sobre essas normas e essa revisão, como membro titular, desde 2002, da HBIGDA-Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association - hoje mais conhecida como WPATH-World Professional Association for Transgender Health. Novas associações profissionais estão se formando, e sou co-fundadora delas. Participo também como membro do Board da OII-Organisation Intersex International - sediada no Canadá.

No Brasil, a atitude é RIGIDAMENTE INTERVENCIONISTA - antiquada e inadequada. A TUTELA do psiquiatrismo/psicologismo coloca as pessoas com qualquer problema de gênero inesperado, dentro dessa TUTELA. Estão vivendo ainda numa fasé pré-DSM-IV, na prática. Se imagina que os problemas de gênero são causados por problemas mentais, e que psicólogos e psiquiatras devem INTERVIR nesses casos, de forma generalizada. Aqui ainda se acredita em teorias já desmistificadas, como as teorias do sexo de criação de John Money, e na teoria insensata da formação da identidade de gênero pela criação nos dois primeiros anos de vida. Essa coisa ultrapassada, ainda se ensina nas escolas, aqui no Brasil.

Desde 1995 quando estudei para escrever "Meu Sexo Real", editado pela Vozes em 1998, eu sabia que não fazia sentido essa posição PSICOLOGISTA/PSIQUIATRISTA e INTERVENCIONISTA. NÃO SE INTERFERE em problemas de gênero, impunemente, SEM PREJUDICAR O PACIENTE.

Hoje em dia o bom profissional RECONHECE o problema de gênero, e respeita as possibilidades de vida futura do paciente. E não INTERFERE com a IMPOSIÇÃO de seus conceitos pessoais. O bom terapeuta de gênero - uma especialidade mais desenvolvida por mim no Brasil - e fui uma das pioneiras no mundo - RECONHECE e não INTERFERE. Só interfere se for EXPRESSAMENTE SOLICITADO PELO PACIENTE, o que é raríssimo!

Eu desenvolvi um método de RECONHECIMENTO PELA INTERNET. Assim eu posso avaliar - de forma simples, eficiente, rápida e segura - jamais uma falha em 6 anos - quem cada paciente é, como se sente. Mesmo que nem sempre eu consiga descobrir exatamente o porque.

Eu avalio esse estado que se desenvolveu naturalmente pela condição neurobiológica do paciente desde a gestação, condição depois modulada através de pressões existenciais. PRINCIPALMENTE avaliamos se o desenvolvimento é TÍPICO ou não.

Se for típico em sua dinâmica, é um desenvolvimento natural, se não, PODE SER consequencia de um problema mental (cientificamente o que quero dizer é que a identidade de gênero é um sistema onde se aplica o conceito de CRITICALIDADE, com EVENTOS EXTREMOS).

Problemas mentais nessa população são tão raros, quanto em qualquer população.

Só para uma PEQUENA POPULAÇÃO ATÍPICA, é necessária alguma intervenção com relação à SAÚDE MENTAL.

Esse enfoque da NÃO INTERFERÊNCIA está sendo discutida na HBIGDA/WPATH e na OII, e estamos propondo uma revisão NÃO-INTERVENCIONISTA - INTERVENCIONISTA APENAS EM CASOS ATÍPICOS - que são muito raros, e plenamente recognoscíveis.

E estamos lutando pelo NÃO-PSICOLOGISMO/PSIQUIATRISMO GENERALIZADO - mas pelo contrário, advogamos a inclusão desses casos como problemas mentais apenas nas suas excessões - que são raras.

Isso, está sendo compreendido NO MUNDO.

Clinicas Latino-Americanas, estão propondo convenios conosco. Dos USA, também.

Por outro lado, falo com o SUS, e não tenho respostas. O SUS anuncia que fará cirurgias MtF de redesignação, mas não abre para um diálogo conosco. Infelizmente. Poderíamos facilmente e a baixo custo incluir no SUS o melhor programa para esses casos - com avaliações baratas, rápidas e seguras, e TREINANDO BONS CIRURGIÕES NO EXTERIOR, podendo promover excelentes cirurgias de qualidade, a baixo custo para o SUS, e gratuitamente para as meninas. Capacitando não só os cirurgiões, mas também os avaliadores, com o que existe de mais moderno e de melhor. Acabaremos fazendo isso nos USA e Mexico, e não no Brasil. Paciência.

A maioria dos avaliadores dos hospitais brasileiros, são muito auto-suficientes e pouco atualizados. A maioria dos cirurgiões quer "desenvolver sua técnica", cada um querendo criar sua roda, às custas de mutilar jovens, que podem ser levadas ao suicídio.

O INTERVENCIONISMO nas avaliações deve ser limitado apenas aos poucos casos ATÍPICOS em que um problema mental pode realmente levar a um problema de gênero - assim a TUTELA GENERALIZADA DA PSICOTERAPIA - e MUITO MENOS DA MEDICINA - não faz sentido nessas avaliações da DIVERSIDADE com que a identidade de gênero se manifesta. Nos países desenvolvidos ASSISTENTES SOCIAIS capacitam-se para avaliar esses casos. É preciso RECONHECER o paciente em seu desenvolvimento típico - em sua dinâmica de desenvolvimento - o que fazemos pela internet na GENDERCARE - pois não é uma AVALIAÇÃO, QUER PSICOLÓGICA E MUITO MENOS MÉDICA. Ao contrário, propomos CAPACITAR PROFISSIONAIS com formação em sexologia provenientes de várias áreas do conhecimento , como avaliadores.

Andrea Rifer :
Pessoas de todo mundo procuram ajuda?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Sim. Atendemos em 4 linguas - Ingles, portugues, francês e espanhol - o que permite que muitos entrem em contato, sejam avaliados e orientados.
A maior parte de nossos pacientes, tanto MtF's como FtM's e outros mais raros que vivem e se desenvolvem sem se enquadrarem nas DUAS CAIXINHAS (F ou M), são do Brasil e USA. Depois, muitos do Reino Unido e outros países da Europa (Portugal, Itália, etc). Da Ásia muitos, de Japão e Singapura principalmente. Da África, África do Sul, países árabes, Israel. Na América Latina, Canadá, muitos. Poucos da Austrália.

Andrea Rifer :
Quem são essas pessoas? São jovens? Mais homens do que mulheres?

Dra.Torres/Martha Freitas:
A maioria são MULHERES MtF. Não use uma linguagem agressiva com essas pessoas.

Uma pessoa que FOI reconhecida como homem, mas faz a transição MtF, com ou sem cirurgia de readequação genital, SE MOSTRA E PORTANTO QUER SER RECONHECIDA E RESPEITADA como MULHER.

A maioria são MULHERES MtF.

Mas muitos de nossos pacientes são HOMENS FtM.

As idades abrangem todo o espectro - desde pais preocupados com a aparente identidade inesperada de crianças de 5,6 anos em diante, muitos jovens entre 12 e 15,16 anos... mas principalmente adultos jovens ou mais maduros, até pessoas com mais de 60/70 anos!

Muitas pessoas que viveram uma vida - com casamento e filhos, ainda querem "morrer" em harmonia interna de gênero.

O espectro de situações, de estados e condições é enorme, assim como de idades.

É importante salientar que nem todos precisam e desejam transformações COMPLETAS. Muitos homens desejam "alguma" feminização do corpo, mais suavidade na pele, a sensação suave de um pouquinho de mamas, distribuição de gorduras mais feminina - sem a perda da ação e funcionalidade masculina. O espectro é amplo, e raramente estão presentes sinais de verdadeiros transtornos mentais.

Andrea Rifer :
Quais são as principais dúvidas?

Dra.Torres/Martha Freitas:
NÃO EXISTEM DÚVIDAS, existem avaliações através do reconhecimento da dinâmica da formação da identidade de gênero. Cada paciente termina por nos mostrar, através de consultas por emails e testes online, como se desenvolveram.

Assim podemos reconhecer quem são, e classificá-los dentro de uma quantidade razoavelmente grande de categorias - e avaliamos se os desenvolvimentos são típicos, quase-típicos, ou atípicos.

Essas avaliações LIMITAM AS NECESSIDADES DE CADA PACIENTE, e nos demonstram o que se pode ou não transicionar. Depois, COM A MANIFESTAÇÃO DOS DESEJOS DO PACIENTE, promovemos uma estratégia para atingir os fins que se deseja e que se pode atingir, com saúde e segurança.

Andrea Rifer :
Depois de fechado um diagnóstico, a Gendercare encaminha alguns casos para cirurgia?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Depois da avaliação COMPLETA, emitimos um LAUDO dessa avaliação, e o paciente, se for o caso e o seu desejo, pode começar a se transicionar, e SUGERIMOS nosso ACOMPANHAMENTO E ORIENTAÇÃO.

Após a transição completa, que leva um a dois, talvez 3 anos, e o paciente DESEJANDO e NECESSITANDO uma transição genital, a providenciamos com os melhores cirurgiões do mundo.

Alguns pacientes, quando nos procuram, já estão completamente ou quase-completamente transicionados. Nesses casos EXIGIMOS SEMPRE A AVALIAÇÃO COMPLETA - para a segurança do paciente e nossa - e nesses casos podemos encaminhar rapidamente para a transgenitalização, se for o caso.

Para cirurgias SRS (de adequação genital) MtF, sugerimos fazer na Thailandia - com os Drs. Suporn, Preecha, Kamol ou Kunaporn, principalmente. São os melhores do mundo, as cirurgias são perfeitas, as meninas ficam funcionais, orgásmicas, absolutamente perfeitas.

No Brasil, com Dr.Jurado ou Dr.Cury, cirurgias boas, principalmente para pessoas maduras.

Nos USA com o cirurgião escolhido pela paciente, pois muitas não querem viajar, etc.. Cada caso é um caso.

Para cirurgias de metaioidioplastia (transformação do clitoris em pequeno penis em FtM's), fazemos nos USA e Canadá, principalmente com Marci Bowers ou Tobby Meltzer, mas com o cirurgião que o paciente indicar. Infelizmente não se faz no Brasil - e parece que ninguém quer aprender a fazer.

Para MtF's procuramos seguir sempre uma linha de transição NATURAL - para mamas, distribuição de gorduras, etc.. sem implantes, se possível.

Injeções de silicone, CRIMINOSAS, JAMAIS!!!!!

Para FtM's, mastectomia (extirpação de mamas e formação de um torax masculino), fazemos no Brasil, com Dr.Jurado ou Dr.Cury, e no exterior com o cirurgião da preferência de cada paciente. Histerectomias completas (retirada de ovários, trompas e útero), no Brasil procuramos fazer pelo SUS, e no exterior, pelo cirurgião da escolha do paciente. Vaginectomia (fechamento da vagina) só fazemos durante a metaioidioplastia, com o especialista nos USA e Canadá. A formação da bolsa escrotal com testículos de silicone, e a formação da uretra na metaioidioplastia, hoje só nos USA e Canadá.

Andrea Rifer :
E quem avalia tudo na Gendercare? Você e uma equipe?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Eu avalio sempre pessoalmente. Na maioria dos casos, os casos são típicos, e não precisamos envolver outras pessoas.

Nos casos raros em que um problema mental real é percebido, desenvolvendo situações atípicas, encaminhamos para um serviço de psicoterapia local, e sugerimos ou a não transição, ou uma situação de "alguma" transição - que muitas vezes alivia as tensões no paciente, e permite a avaliação psicoterápica local mais efetiva.

Raramente precisamos contar, nos USA com a ajuda do Prof.Italiano, de New Jersey.

Andrea Rifer :
Durante as consultas on line, a Gendercare aplica testes? Como vc criou esse método? Ou era algo que já existia e que passou a aplicar?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Nós aplicamos testes de idemtidade inesperada desenvolvidos por nós, testados pela internet durante 2001 a 2003 em milhares de pacientes e validadados por nós. Criamos softwares para avaliação dos testes, desenvolvemos toda a matemática da avaliação.

Mas também aplicamos testes de pré-avaliação psico-terapeutica, como o teste de personalidade de Minnesota (MMPI), e quando necessário, questionários dirigidos padronizados como o PDQ-4, desenvolvido nos USA.

Quando detetamos verdadeiros problemas mentais em desenvolvimentos totalmente atípicos, encaminhamos para acompanhamento local

Andrea Rifer :
Tem noção de quantas pessoas já procuraram a Gendercare desde 2001?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Centenas de milhares. Muitas centemas se tornaram pacientes, muitas dezenas se transicionaram e foram operadas (MtF's e FtM's), a maioria no exterior.

Andrea Rifer :
E vc? Qual foi a principal transformação depois da cirurgia? Li em uma antiga entrevista, que você se considerava bissexual e que podia se apaixonar tanto por homem quanto por mulher? É isso mesmo? E já era assim antes da cirurgia?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Me apaixonei e amei algumas vezes, SEMPRE MULHERES. Depois da cirurgia, e só depois dela, fiquei com pouquissimos homens, e sexualmente foi bastante prazeroso, mas minha AFETIVIDADE é voltada para mulheres.

Mas a afetividade com mulheres, no passado, me gerou filhos, problemas, desentendimentos, separações doloridas.

Hoje estou ótima - perto de homens e mulheres COMO AMIGOS E SERES HUMANOS - mas relacionamento afetivo-sexual, está fora de meus planos, de forma radical.

Tem um advogado FtM - gostamos muito um do outro. Afetivamente COMO PESSOAS, eu faço tudo para ajudá-lo, e sei que ele faz o mesmo por mim. Mas RELACIONAMENTO AFETIVO-SEXUAL ele até quer, mais do que eu. Eu simplesmente virei essa página.

Na NATUREZA, contrariamente ao que muitos religiosos cristãos acreditam, a bissexualidade é norma em algumas espécies de PRIMATAS, inclusive muito próximas de nós, como os macacos japoneses e os Pan paniscus. Biologicamente, a Natureza mostra, potencialmente podemos amar e nos apaixonar por pessoas - homens ou mulheres.

Andrea Rifer :
Você mora no Rio de Janeiro? Além do site, também atende em consultório?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Minha base principal é a WEB. Estou inserida na WEB, à partir dos USA. Essa é minha casa como terapeuta.

Fisicamente tenho casa no Rio, viajo muito, e sempre com um laptop, e me conecto sem grandes dificuldades.

Não atendo presencialmente - acho que o resultado se torna muito menos objetivo, é uma coisa muito cara para o paciente, e improdutiva.

Um paciente sendo meu vizinho, se quiser uma avaliação, farei pela Web.

Andrea Rifer :
De onde vem o pseudônimo Martha C. Freitas? Oficialmente você atende como Dra. Torres?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Quem não tem um nome, pode ter todos os nomes. Sou Martha C. Freitas, Dra.Torres, Regina, Camila, Clara, Fernanda, etc..

Meus filhos - alguns deles me pediram - para não mudar oficialmente de nome e de documentos civis. Até do ponto de vista prático seria difícil e dispendioso aqui no Brasil. Não vou mudar.

Mas posso usar os nomes que quiser.

E viajo pelo mundo, sem constrangimentos - em lugar algum, nem aqui, nem na Europa, nem nos USA nem em lugar nenhum - jamais passei por constrangimentos num aeroporto, numa alfândega, em lugar algum.

Andrea Rifer :
Você tem vários artigos e livros publicados?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Sim, com vários pseudonimos e sobre vários assuntos, em varias editoras.
Artigos desenvolvemos um JOURNAL, em parceria com o Prof. Italiano de New Jersey. O GIDJournal - um journal eletronico cientifico sobre esses assuntos. Publicamos muita coisa minha, do Prof. Italiano, e papers com a cirurgia completa do Dr.Cury em portugues e ingles, artigos do Dr.Jurado, e de muitas outras pessoas.

Agora, a OII - vai editar um novo journal científico englobando assuntos de formação da identidade de gênero e de intersexo. Devo participar do corpo editorial, mas no futuro. Será editado à partir do Canadá, não sei se como e-journal, se em papel.

Andrea Rifer :
Com tudo que já estudou, acredita que hoje há muita confusão entre ser travesti, transexual, homossexual?

Dra.Torres/Martha Freitas:
No primeiro mundo, a confusão diminui rapidamente. Aqui a ignorância ainda é grande, à partir dos próprios "especialistas" e na midia.

Homossexual, heterossexual, bissexual, assexual, pansexual, é a RELAÇÃO entre pessoas, e não é característica da pessoa, mas DO MOMENTO, dos elementos da relação, etc..

A relação é passível de uma ORIENTAÇÃO. Entre iguais, homo. Entre diferentes, hetero. Como cada ser humano é único, de modo estrito toda relação é hetero. Mas pode ser bi - quando fluida e variável em sua direção. Ou a - quando não se quer nenhuma relação. Ou pan, quando os elementos se abrem a todas as possíveis direçoes.

NINGUÉM É UMA DIREÇÃO - portanto ninguém é homo, ou hetero, ou... qualquer direção. As RELAÇÕES têm direções.

Classificar as pessoas pelas direçoes das relações é um erro de principio - que termina por se propagar e distorcer a realidade.

Gênero - como AUTO PERCEPÇÃO - como identidade de gênero - é algo íntimo da pessoa, que se desenvolve NA MENTE. Esse desenvolvimento tem uma base biológica no cérebro basal em humanos e em todos os primatas, e é muito influenciado pela gestação, por hormonios durante a gestação e pela genética. E pelo resto do cérebro. E muitos fatores interferem, modulam, desestabilizam, redirecionam.

Mas é uma característica do SER e não da RELAÇÃO entre seres.

Discute-se hoje em dia se existe um ENTRANHAMENTO entre ser e direção - uma discussão interessantíssima. Mas dados da vida real mostram que não existe um entranhamento no sentido estrito do termo.

Por isso tudo, é importante diferenciar, inclusive nas leis e na academia a AUTO-PERCEPÇÃO DE GENERO de ORIENTAÇÃO SEXUAL.

Entre travestis e transexuais em lingua inglesa, se define melhor as diferenças:

Transsexual é quem tem a Sindrome de Harry Benjamin. Tem mente de um genero, genitais do outro, e quer a mudança radical do corpo e genitais para se adequar a sua mente. Depois de adequado/a, fica perfeito/a.

Travesti, em ingles se divide em dois termos: Transgender (trasgênero) e SheMale. Uma pessoa que quer uma aparencia de um genero, mas genitais funcionais do outro. Quando usa essa transformação EM PROSTITUIÇÃO, chamam de SheMale. Quando têm outras profissões, são Transgenders.

E existem muitas outras nuances e categorias, graus de variação, etc!!!

Na nossa mente, a formação da auto-percepção de gênero é algo complexo, que desenvolve um amplo espectro de possibilidades!

Andrea Rifer :
Uma dúvida que tenho: o correto é dizer transexualismo ou transexualidade? Ou as duas formas estão corretas?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Eu sempre gostei mais de TRANSEXUALIDADE, como um estado entre muitos estados possíveis, num espectro possível de diversidade de estados, e não estritamente como PATOLOGIA.

Mas a patologia - muio rara é verdade - existe. Ou seja, existem raríssimos casos de TRANSEXUALISMO entre uma quantidade muito maior de diversidades recognoscíveis como TRANSEXUALIDADES.

Essas nuances discutimos hoje na HBIGDA/WPATH e na OII para contribuirmos com a OMS na confecção da CID-11 e da DSM-V.

Andrea Rifer :
Já ouvi transexuais reclamando que os travestis se intitulam transexuais ou que a mídia cria termos como transex ou trans e acabam desinformando. Você acha que de forma geral, tanto pelas pessoas que vivem o problema, quanto pela imprensa houve uma banalização do tema?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Banalização total. Por isso nunca mais apareci na mídia, mesmo convidada inúmeras vezes.

Gostaria de poder ensinar em Universidades o que sei, mostrar os resultados, discutir os pontos de princípio. E depois poder divulgar na mídia, de forma séria esse conhecimento. Não em programas populares e sensacionalistas - mas numa TV Publica talvez, de qualidade, que mostre o debate, que permita que se apresente idéias em mais profundidade.

Mas é difícil no Brasil - nossas universidades se fecham em si mesmas, e não temos uma BBC. É mais fácil para mim falar em Chicago que em São Paulo ou Rio. E em Chicago, não é fácil.

Aqui me sinto um macaquinho amestrado - parace que eu falo e ninguém quer entender. Prefiro ficar calada. Gostariam que eu fizesse macaquices. Isso não vou fazer.

Andrea Rifer :
E os médicos? Além dos que lidam diretamente com transexuais, acredita que os outros já saibam atender este público? Ou ainda há muito preconceito?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Muito preconceito - e muita irresponsabilidade. Um horror!

Quando tento falar com alguém do SUS, percebo que me vêm como um ET.

Como as avaliações aqui ainda são um assunto de patologizar mesmo que não seja patologia, se exige uma verdadeira maratona de cada paciente. Isso não é uma boa avaliação. A boa avaliação se faz RECONHECENDO. Para reconhecer é preciso CONHECER.

Essa avaliação não é estritamente, nem médica nem psico-terapeutica. É existencial, é saber ler e reconhecer - após conhecer.

Pessoas muitas vezes projetam nos pacientes suas inseguranças, e não reconhecem nada, e passam a querer INTERFERIR. Ainda somos muito CARTESIANOS - queremos compartimentar - quando aqui o que vale é o não-compartimentar.

Formam-se grupinhos corporativos fechados - que não ouvem, que não se comunicam, além de suas associações corporativas próprias - patologizando o que não é patologia - e não reconhecendo muitas vezes QUANDO PODE SER PATOLOGIA.

As equipes de avaliação nos programas universitários atuais são bastante carentes de qualidade e de conhecimento. E o mesmo acontece com muitos cirurgiões, que sem uma capacitação devida resolvem INVENTAR... e terminam por mutilar...

Os médicos brasileiros, não querem aprender, nem se especializar.

Cirurgias de Feminização de Face - FFS, hoje fazemos na Thailandia, nos USA e na Argentina. Os Argentinos se interessam, nenhum cirurgião brasileiro tem qualidade que se compare à deles, não se interessam. Não falo nem na transgenitalização, mas na feminização de face!

Andrea Rifer :
Como encara o fato de o Ministério da Saúde ter anunciado que vai colocar o procedimento cirúrgico na tabela do SUS? É um avanço no Brasil?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Será um avanço, e poderá ser um ENORME AVANÇO, se estiverem dispostos:

1. A capacitar cirurgiões no exterior nas melhores técnicas - posso proporcionar essas oportunidades na Tailandia e USA, por exemplo, ANTES DE MUTILAR INOCENTES;

2. A ouvir quem conhece como terapeuta de gênero que foi paciente, e que tem estudado em profundidade o assunto. Um programa desse sem a colaboração da GENDERCARE, caminhará a passo de tartaruga - quando se TRABALHARMOS JUNTOS EM PARCERIA - podemos caminhar enormemente em qualidade e eficiencia.

3. Se seguirem velhos caminhos, o que é provavel - será um programa mais de fachada, grupinhos locais que vão mutilar uns, revoltar outros. Podem chover ações na justiça contra esses programas e cirurgiões... sem contar que suicidios podem ocorrer... por desalento em filas eternas... ou por cirurgias mutiladoras e castradoras.

4. As cirurgias bem feitas PRESERVAM TODOS OS NERVOS E TODA FUNCIONALIDADE SEXUAL. Pacientes nossas, após a cirurgia, em consulta ginecológica, foram reconhecidas como mulheres genéticas pelos ginecologistas - no Brasil como no exterior. Não ocorre castração, pelo contrário, ocorre a viabilização sexual do prazer e da sexualidade. Se pudermos contribuir, poderemos garantir essa qualidade PARA TODO O PROGRAMA... como garantimos para nossos pacientes GENDERCARE hoje em dia, no mundo todo.

5. Especial cuidado com o pós-operatório SEXUAL da paciente operada, e não só o clínico. A qualidade dessas cirurgias, como o bom vinho, se conhece depois de algum tempo. Geralmente no Brasil, após a cirurgia a paciente fica ao Deus dará. Nós assistimos nossas pacientes GENDERCARE durante 6 meses após a cirurgia, até que se relacione sexualmente de forma segura, confortável e prazerosa.

Andrea Rifer :
Você tem dados estatísticos sobre transexuais no Brasil?

Dra.Torres/Martha Freitas:
Eu avalio entre 10 e 20 mil, que realmente precisam de cirurgias, incluindo MtF's e FtM's.

Precisamos criar alguns centros de excelência, com base no SUS:

No Rio (1 ou 2), em SPaulo (2 ou 3), em Minas (1 ou 2), no Planalto Central do país (1 ou 2), na Amazonia (1 ou 2) , no Nordeste (1 ou 2) e no Sul (1 ou 2).

Com uma dezena desses centros atender-se-ia toda a população necessitada.

Poderíamos fazer, trabalhando em parceria com o SUS, um peneiramento das avaliações através de nossas avaliações completas pela internet - e PEQUENAS EQUIPES locais de avaliação APENAS PARA OS 5% DE CASOS DE VERDADEIROS TRANSTORNOS MENTAIS seria o suficiente para avaliar TODOS OS PACIENTES NO BRASIL em poucos anos.

Seria um programa BARATÍSSIMO e extremamente eficiente.

Na GENDERCARE avaliamos de forma completa cada paciente MtF ou FtM, por aproximadaente 800,00 R$. Depois, o custo do acompanhamento e orientação pela Web é de aproximadamente 150,00 R$ por mes. O SUS custearia um programa de avaliações gratuitas (para as pacientes) pela GENDERCARE em parceria, por ainda menos. Porque não?

Cada centro com um ou dois BONS CIRURGIÕES capacitados após um período de aprendizado de alguns poucos meses numa clinica no exterior - na Thailandia, principalmente, e também com Dr.Jalma Jurado que tem uma ótima cirurgia para pessoas MADURAS - poderiam oferecer cirurgias perfeitas a baixo custo para o SUS - usando a técnica tailandesa para jovens e para pessoas maduras, a cirurgia Jurado, a critéio da paciente, após ela conhecer, através da GENDERCARE em sua avaliação, as vantagens e desvantagens de cada uma.

O Dr.Suporn - o melhor do mundo, que opera para nós, tem uma equipe que opera mais de 8 pacientes por dia. De forma PERFEITA. Se operássemos em cada centro 5 cirurgias por semana, rapidamente atenderíamos todas as regiões, mesmo as mais inóspitas do país.

Não podemos esquecer que o governo federal está informatizando o país. Será fácil avaliar todos através de PC's conectados - e os que necesitarem de transições e depois de cirurgias, através desses centros promover suas correções regionalmente - com a orientação da GENDERCARE.

No inicio para MtF's e depois, a mesma estrutura de programa, para FtM's.

Porque não?

Andrea Rifer :
Bom é isso. Sei que perguntei demais, mas te encaro como uma referência, por isso tinha que extrair de você o máximo que pudesse. Minha matéria é principalmente sobre o caso de um transexual de Santos que está prestes a fazer a cirurgia. Mas que para conseguir, precisou até acionar a Justiça. Como vai ser uma matéria de página inteira, resolvi falar com outras pessoas que já passaram por isso ou que sejam referência no tema. Estou tentando também uma entrevista com o Dr. Jalma Jurado. É isso. Mais uma vez, obrigada.
Andrea

Dra.Torres/Martha Freitas:
Obrigada Andrea, pelo convite, e pelas perguntas pertinentes.

Se puder, não edite o que falei. Não quero que possa mudar inadvertidamente o sentido.

Os aspectos científicos e da GENDERCARE são mais importantes que minha vida pessoal!

Sucesso!

Me mantenha informada!

Qualquer dúvida, escreva!

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